Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O porquê das crises

As crises financeiras são, antes de tudo, crise de expectativas. Elas são produto do sistema capitalista e vão existir enquanto o sistema governar o mundo. Nisto concordam a esquerda e a direita (basta ouvir o PCP e o PP). Só que enquanto uns afirmam que é preciso mudar o sistema; outros assumem que a crise é um mal necessário. Somente o centro (onde hoje se coloca o PS, mas já não o PSD) é que nega a fatalidade da crise e exige dos governos que tomem medidas. (Por isso é que o PSD já não pode ser considerado de centro; na medida em que exige a redução do défice antes do investimento, ele retira ao estado a possibilidade de actuar ante a crise e, sem coragem para assumi-lo, aceita a inevitabilidade da crise).

O que é que gera a crise? O empresário que tem uma ideia de negócio necessita de dinheiro para investir. Portanto, recorre ao crédito. O capitalista (no sentido schumpeteriano e não marxista, isto é, o dono do dinheiro) cede-lhe um crédito ou, mais exactamente, compra a dívida do investimento. As dívidas são compradas e vendidas na Bolsa de Valores entre capitalistas (sempre no sentido schumpeteriano, onde até pessoas de classe média podem ser capitalistas desde que comprem dívida, ou seja, acções na bolsa). Não obstante, comprar dívida é comprar algo que só vai existir no futuro. Só que enquanto houver quem esteja disponível a comprar, a brincadeira parece saudável e funciona como motor do crescimento. Crê-se que se alguém está a comprar dívida, a ceder um crédito, alguém está a investir.

O problema é que há medida que os investimentos se acumulam, cada investimento torna-se menos rentável e os juros mais difíceis de pagar. Quando os investidores começam a ver baixar as suas taxas de retorno, os capitalistas, os compradores de dívida, os prestadores de crédito, começar a ter mais cautela com o seu dinheiro. Os credores, cautelosos, “vendem” o seu dinheiro mais caro, isto é, a taxa de juro aumenta.

Com as taxas de lucros esperadas mais baixas (pela acumulação dos investimentos), e com as taxas de juro mais elevadas, é de esperar que as investidores invistam menos. Que haja menos emprego, logo menos consumo e, para  completar o círculo, menos lucros das empresas (“confirmando” as expectativas dos credores e investidores). Começa então um ciclo de desinvestimento que, a certa altura põe em causa se a dívida comprada pelos capitalistas pode ser paga. Os capitalistas começam a entrar em pânico exigindo o seu dinheiro, os bancos que coordenam todo este movimento a entrar em falência e a riqueza que só iria existir no futuro “desaparece”. Estamos na crise.

Quando quase toda a “riqueza futura” tiver desaparecido (do bolso de quem depende das relações de poder existentes na sociedade), o desenvolvimento tecnológico, alterações nos hábitos sociais, etc. farão que valha a pena investir de novo. Os empresários irão recorrer de novo ao crédito e porão novamente a bolsa de valores a funcionar. Um novo ciclo de crescimento terá inicio… e lá na ponta, se pode antecipar outro ciclo de decrescimento e uma nova crise.

Assim é o capitalismo.

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10 de Maio de 2010 - Posted by | Economia, Metodologia | ,

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