Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A professora de Mirandela

Já lá vão 14 anos, a minha professora de biologia fez o seguinte. Colocou um bocado de pão num tubo de ensaio com água, um pouco de ácido clorídrico e umas gotas de reagente de Benedict. O tubo de ensaio foi mergulhado em água a ferver e ao fim de algum tempo (talvez meia-hora) o líquido ficou cor de tijolo. A professora afirmou: “Voilá, o amido transformou-se em glicose. Isto é mais ou menos o que as enzimas fazem no nosso estômago”. Eu só vi o líquido, dentro do tubo de ensaio, mudar de cor… mas acreditei em tudo.

Existem coisas sobre as quais é difícil tomar uma posição. Ou melhor, uma posição que seja totalmente compreendida. Uma delas é a que tenho sobre a recente polémica da professora de Mirandela que pousou para a Playboy. Se sou contra a atitude da Câmara Municipal, despropositada de todo, tampouco posso deixar de criticar a atitude da professora. Mas a questão é complexa e para fazê-la necessito toda a epígrafe que escrevi acima para poder explicar-me.

Muito do que se aprende deve-se sobretudo à autoridade do professor que ensina. Eu não vi o amido nem a glicose, somente vi que algo mudou de cor… e acreditei. Portanto, a credibilidade do professor é um elemento fundamental da pedagogia. Ora, transgredir uma regra moral é expor-se à critica; é pôr em causa à sua credibilidade, o crédito que os alunos lhe depositam. Com isto não digo que a professora deixou de saber o que sabia, ou perdeu a sua competência pedagógica. Somente que os alunos não vão olha-la nem ouvi-la da mesma maneira. Quer queiramos quer não, para estes alunos, tal como para seus pais, esta professora “não se dá a respeitar” por isso “não merece respeito”.

Podem dizer-me que a regra moral que ela transgrediu é absurda. Provavelmente vou concordar. O problema, do meu ponto de vista, não foi pousar para a revista. Foi fazê-lo tendo uma profissão que depende da sua autoridade. Com certeza uma arquivista de uma repartição de finanças não teria tanta publicidade ou, pelo menos, críticas da minha parte.

Mas sou absolutamente contra a atitude da Câmara Municipal. Eu olho para esta professora como para qualquer um que vá aos touros a Barrancos. Critico a sua atitude! Mas deixo cada um com a sua consciência.

Anúncios

19 de Maio de 2010 - Posted by | Sociedade portuguesa

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: