Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Os vértices da crise

Escrever este blog criou-me dois novos hábitos: ler jornais todos os dias e tomar notas (ainda que públicas). Esse tipo de actividades têm consequências; comecei a identificar aquelas questões que estão a determinar a política. Normalmente são três; não porque sejam três efectivamente, mas porque é difícil memorizar a quarta. Por isso acaba-se por ficar com as três que parecem mais importantes.

Numa nota anterior, defendi que a política portuguesa estava marcada pela crise (a opção entre medidas keynesianas e neoliberais, ou seja, entre relançar a economia à custa do investimento público ou portar-se bem e esperar que a economia se relance sozinha), pela candidatura de Manuel Alegre e pela disputa por eleitorado entre PS e PSD. Havia nisto mais desejo que análise. A candidatura de Alegre iria puxar o PS para próximo do BE; Passos Coelho, querendo abrir espaço ao centro para ganhar eleitorado, empurraria o PS também para a esquerda.  E tudo isto iria obrigar o PS a optar por um keynesianismo possível, que não chateasse demasiado a Europa nem a elite empresarial portuguesa. Obviamente, o acordo entre Sócrates e Passos, jogou a minha teoria no lixo.

Mas o bom do blog é que as análises se acumulam e as “teorias” se revisitam. As três questões se renovam

1) Está provado que o modo de enfrentar a crise não se discute ao nível do país. Ele é internacional e ameaça ser decidido apenas pelos dois grandes. Por dois presidentes, Obama e Merkel, muito contestados em seus próprios países, com um olho nos indicadores económicos e o outro nas sondagens. Prevejo que preferiram tapar buracos e colocar remendos do que assumir a necessidade de refazer partes da estrutura económica mundial, muito menor pôr a hipótese refazê-la por completo.

2) Em Portugal, o governo deve contentar-se em saber como vai resolver o problema da falta de competitividade das empresas portuguesas. Economistas aconselham a reduzir os salários em 20%. Obviamente só o afirmam porque não se trata do salário deles. Mas temos de assumir que toda a indústria que surgiu na década de 1980 desapareceu. E, por incrível que pareça, não existe hoje um diagnóstico  “que se apodere das massas” (para usar as palavras de Marx) e se torne guia de uma política nacional. Para falar verdade, começam a ser publicados alguns, mas esses eu recuso.

3) E claro, Manuel Alegre com o BE, Passos Coelho e Sócrates, etc. vão continuar a disputar quem vai estar no governo (embora, às vezes, Passos pareça esperar que a crise passe para passar a fazer oposição a sério). Isto vai acrescentar algum ruído (no sentido de erro, de deformação, ou melhor, de refracção, como um vidro refracta a luz solar) às duas questões principais mas vai ser apenas uma questão secundária. Viva a democracia.

Entretanto, prometo-vos, tentar neste blog estar atento aos três pontos, mas em especial ao segundo.

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24 de Maio de 2010 - Posted by | Economia |

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