Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O regresso das ideologias

Boaventura Sousa Santos falou ontem no regresso da luta de classe. Tive sorte de antecipar-me a ele alguns dias para poder reclamar direitos autorais. Acho que até mesmo alguns anos, já desde a década de 1990 que ele anda a dizer que a luta de classes está ultrapassada. Pese a que mesmo os seus amigos brasileiros se corrigiram já há 10 anos (falo, por exemplo, do livro de Evelina Dagnino com Arturo Escobar “Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos”).

Isto, embora já tenha dito aqui que não acredito em classes. E posso repeti-lo. Digo-o não porque acho que a disputa entre capital e trabalho esteja ultrapassada (como o BSS chegou a insinuar em “A mão de Alice”), mas porque hoje contamos com conceitos para apreender essa luta de forma mais precisa – por exemplo, o de campo de Bourdieu. Para este, divisor de águas é sempre determinado no contexto da luta e não num a priori como pretendem os marxistas.

Mas em 2008 “desapareceu” dinheiro da economia; o Estado endividou-se para cobrir o buraco. Não foi algo anormal na economia, mas o que é costume passar-se no final etapa depressiva de um ciclo económico. Agora pede-se que alguém pague a dívida do Estado. E a discussão que se coloca, o que divide as águas, é onde ir buscar o dinheiro:

  • Ao factor trabalho (salários e consumo básico) para dar espaço ao investimento privado, esquecendo que os mecanismos de funcionamento do investimento privado são a causa da crise; ou
  • Ao factor capital (rendas, lucros e consumo de luxo), o que implica que o Estado também tenha que garantir o relançamento da economia com o investimento público.

Isso trouxe a “luta de classes” de volta e partiu o país ideologicamente. O PS, PSD e CDS ficaram de um lado; o PCP e o BE do outro.

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3 de Junho de 2010 - Posted by | Economia, Ideologia | , , , , , ,

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