Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Tomem lá os 30%

Os “especialistas” da economia internacional afirmaram que para Portugal  relançar o crescimento económico e sair da crise precisa reduzir o custo da mão-de-obra. Paul Krugman falou em 30%, o outro Paul, o Grauwe, disse que talvez fosse 10 ou 20%. Mesmo sabendo que essa não é a única solução, que se trata de uma questão ideológica, ainda vale a pena perguntar que precisa fazer o governo para fazer a vontade a estes senhores? Muito pouco. Tudo já está a acontecer, só é preciso que os portugueses achem normal!

Senão vejamos. Segundo os Resultados do Inquérito ao Emprego do primeiro trimestre de 2010, existem menos 44,7 mil empregos que há um ano atrás. Não obstante, existem mais 50,2 mil contratados a prazo. A verdadeira redução deu-se no número de trabalhadores efectivos, que hoje são menos 101,1 mil. Ou seja, por cada dois empregos com direitos a menos, só um é que realmente se extinguiu; o outro apenas se transformou em trabalho precário. Não admira, portanto, que Kees Stromer, director da Tempo-Team, a maior empresa de trabalho temporário em Portugal, se congratule: “Portugal é um mercado extremamente interessante, com grandes capacidades de crescimento“. E que a segunda maior empresa de trabalho temporário tenha registado um crescimento no volume de negócios de 46% entre o início 2009 e o início de 2010.

Ao contrário dos espanhóis, empresários e governo portugueses nem sequer precisam de mexer no código de trabalho. Basta tão só avançar com mecanismos de contratação de mão-de-obra a margem dele e pintá-los de cor-de-rosa (nem por acaso). Recibo verdes, contratos a termo certo, empresas de trabalho temporário… Diferentes mecanismos, mas todos  são parte do mesmo processo: a redução do custo de mão-de-obra. O desemprego pode ser conjuntural e dever-se à crise, mas os seus efeitos no mercado de trabalho estão a ser estruturantes.

Se dúvidas houverem, os dados das próprias empresas de trabalho temporário demonstram que, de facto, não é de trabalho temporário que se trata:

10% dos empregos temporários em Portugal duram até um mês, perto de 20% entre um e três meses, e os restantes 70% são contratos superiores a três meses. Em comparação, diga-se que no Luxemburgo ou em Itália a maioria dos contratos não chega aos 30 dias e que os números portugueses apenas são superados na Suécia e na África do Sul (ver fonte).

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5 de Junho de 2010 - Posted by | Economia |

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