Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A reunião do G20: comentários

A reunião do G20 na Coreia do Sul, no passado dia 4, começou com um anuncio interessante: o FMI iria propor impostos sobre o sector financeiro. Mas terminou com uma desilusão: a intervenção do Estado foi preteria em relação à consolidação da dívida. Este é sem sombra de dúvidas o principal vértice da crise económica, mas também aquele que é mais difícil de analisar. Alguns elementos permitem uma primeira aproximação.

1) Primeiro, a última reunião da OCDE pareceu anunciar uma revolta dos políticos. Os políticos sentem-se de mãos atadas, entre as decisões da alta finança e os protestos dos trabalhadores em vários países da Europa. Não é que concordem com os sindicatos e partidos de esquerda quando estes criticam a especulação. Somente se revoltaram ao descobrir que, apesar de terem sido eleitos para governar, estão a ser governados pelas decisões da bolsa.

2) Contudo, quando toca a decidir o que fazer, a coisa complica-se. Em primeiro lugar a liquidez (isto é, a capacidade dos governos e empresários acederem ao crédito) não é a mesma para todos os países. Na Europa e nos Estados Unidos os capitalistas estão a retirar o dinheiro da bolsa para investir em produtos seguros. Isto faz com que governantes e empresários europeus e norte-americanos tenham menos crédito disponível. Mas isto não se está a passar em países como o Brasil, onde o crescimento dá segurança a investidores. Ou seja, enquanto para a Europa e para os Estados Unidos colocar impostos sobre o sector financeiro não afectaria a liquidez e nem o crescimento, porque este já está parado; o mesmo não aconteceria em outros países como o Brasil. Daí que estes países se oponham a tais medidas.

3) Analisando de perto, tampouco a Europa e os Estados Unidos estão de acordo. Neste aspecto é uma no cravo, outra na ferradura. Se por um lado, a Europa permanece numa posição mais estrita que os Estados Unidos na defesa da consolidação orçamental, são os Estados Unidos que se opõem ao fim de mercados bolsistas que estão no âmago da crise. Obviamente, parece ser o nacionalismo norte-americano que gera esta diferença, quer positivamente quer negativamente. Positivamente, porque o interesse nacional de crescer para gerar emprego está por cima da ideologia do défice zero. Negativamente porque se colocam contra as medida de controlo do sector financeiro prejudique mais os seus bancos que os dos outros. Para entender o que está em causa basta lembrar que foi nos Estados Unidos que se transaccionaram os produtos especulativos que fizeram aumentar a taxa de juro da dívida pública grega.

Em suma, estamos diante do dilema da acção colectiva de Olson. Um país não pode tomar medidas sozinho de restrição do economia especulativa, porque não teriam efeito num mercado globalizado. Contudo as condições para um entendimento dos principais interessados, para uma actuação conjunta, parecem estar longe de surgir.

Por outro lado, trabalhadores e sindicatos nem sequer estão no panorama. Trata-se de uma disputa entre capitalismos nacionais que vai condicionar os conflitos nacionais entre capital e trabalho. Somente de forma indirecta os trabalhadores podem ser ouvidos. Posto isto, não posso ser optimista quanto ao futuro de Portugal.

Anúncios

7 de Junho de 2010 - Posted by | Economia, Ideologia | , , , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: