Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Pode Portugal crescer?

Saíram nestes dias algumas notícias afirmando que Bruxelas exige a Portugal uma redução dos direitos laborais (ver aqui também). Embora notícias mais recentes tenham vindo turvar as águas, algumas medidas populistas do governo parecem estar a preparar as condições para isto. De qualquer modo, a Portugal não é necessário reformar o código de trabalho, basta tão somente criar condições para que ele não se aplique.

Para quê mudar ou reduzir os direitos laborais? Para que o investimento aumente e Portugal inicie um ciclo de crescimento. A redução dos custos do trabalho em 30% permitiria um crescimento da taxa de lucro das empresas não financeiras de 6% para 10%, isto é, para ao nível ao qual a economia se torna “funcional” *.

Contudo, este tipo de análise é míope. É preciso qualificar o tipo de investimento esperado para entender as implicações a longo prazo de uma política de crescimento económico baseada na redução dos salários. Tendo Eugénio Rosa dito tudo no que toca à formação do empresariado português, problema que afecta as pequenas e médias empresas, resta- -me fazer uma observação sobre as grandes: não se vislumbra um projecto de país no empresariado português.

Creio que foi Miguel Cadilhe que afirmou que o 25 de Abril afrontou os empresários portugueses e por isso, ao contrário dos espanhóis, estes não são nacionalistas. Outro dia ouvi uma tese muito mais pertinente: até ao 25 de Abril, o empresariado português tinha uma visão imperial. Angola ainda era território português quando foi decidido construir o porto de Sines, como a porta de entrada de África na Europa. Depois do 25 de Abril, os empresários portugueses perderam o sentido de país e somente a existência de empresas do Estado permitiu a presença de um tecido industrial em Portugal. Com as privatizações depois da adesão à União Europeia, este tecido empresarial desapareceu.

Sem uma participação do Estado – o que não exige redução de salários mas vontade política – a reconstrução do tecido industrial português dificilmente se fará. Se a única preocupação do Estado for em reduzir o custo do trabalho, quando muito, surgirão empresas com uma estratégia competitiva baseada em mão-de-obra barata e pouco qualificada. Serão as mesmas que surgiram no final da década de 1980 e que, apesar de todas as ajudar da UE, nunca quiseram ser competi- tivas. Serão empresas pouco disponíveis para inovar e se diferenciar. Assim como jogaram para o lixo os subsídios europeus, desbaratarão o esforço que agora exigem dos trabalhadores.

A redução dos salários dos trabalhadores poderá criar um novo ciclo de crescimento, mas de pouca dura. Daqui a 10 anos estaremos na mesma, com os empresários a pedir novo abaixamento de salários.

*As contas que apresento baseiam-se em dados de 2008 (os mais recentes), considerando que todo o valor de custos com o trabalho (salário + impostos) não pagos se transformavam em lucros (distribuídos + auto-financiamento). Os dados estão disponíveis no site do INE e Eugénio Rosa já os comentou.

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9 de Junho de 2010 - Posted by | Economia | , ,

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