Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

É possível um ajuste estrutural na Europa?

A receita ortodoxa para a crise económica é velha: congelam-se os salários, deflaciona-se a economia. Foi aplicada pela primeira vez no Chile de Pinochet em 1973. Ali, radicalmente, se reduziram de uma assentada os salários a metade do seu valor. As empresas começaram logo a dar lucros e a exportar. À custa da fome e do desespero – quando não do sangue – da maioria da população, o Chile tornou-se o segundo país mais desenvolvido da América Latina, depois da Argentina. (Cuba, sem ajustamento estrutural nenhum, têm curiosamente um valor de IDH próximo !).

Na Europa, está em curso um processo semelhante. Congelam-se os salários, restringe-se o crédito, aumentam-se os impostos. A moeda não é deflacionada por decisão do governo, mas como consequência do mesmo processo. No ano de 2009, a economia portuguesa sofreu uma deflação de 1% (dados da OCDE). Pode ser pouco, quando comparado com o caso Chileno. Mas o processo é o mesmo e tem como objectivo de baixar os salários em 30%.

Contudo o lugar é diferente – mesmo do ponto de vista dos capitalistas. Os salários podiam baixar à vontade no Chile, porque o mercado dos produtos produzidos lá estava nos Estados Unidos ou na Europa. Do ponto de vista capitalista – não dos trabalhadores – não houve qualquer problema no ajuste estrutural. Contudo, na Europa e nos Estados Unidos os trabalhadores são também consumidores.

Aqui, para os capitalistas, colocam-se dois problemas. Por um lado, a produção global do planeta terá como único mercado os EUA. A redução dos salários na Europa tornarão-a um mercado de exportação muito menos interessante, pois as pessoas não terão dinheiro para comprar nada. Por outro lado, os EUA ver-se-ão inundados pelos produtos de todo o mundo: não só da Europa que estará a produzir com salários mais baixos, mas de todos aqueles países que deixarão de conseguir vender os seus produtos na Europa

Inundados com os produtos dos outros, os Estados Unidos terão maiores dificuldades para sair da crise. Mesmo as expectativas europeias, sobretudo alemães, de crescer à custa das exportações para os Estados Unidos sairão frustradas. O pacto de estabilidade, longe de resolver a crise, poderá agravá-la e contagiá-la aos chamados países emergentes que perderão o mercado europeu.

E para cúmulo, as empresas que estão na Europa, ao contrário daquelas que estão no Chile, não são americanas. É, por isso, que Obama começou a reunir aliados contra o ajuste estrutural na Europa. Os trabalhadores europeus, que não querem ver reduzido o seu poder de compra, agradecem.

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26 de Junho de 2010 - Posted by | Economia | , , ,

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