Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Os dois Sócrates

Um político nunca é ele mesmo, é o produto de todos aqueles que fazem dele político. Dos seus eleitores, dos seus financiadores, dos assessores, da estrutura burocrática que o garante, etc. Com Sócrates, as contradições entre o sujeito e toda a massa de gente que está por detrás não param de vir à tona. Sócrates parece contraditório, mas é só uma impressão. O keynesiano convicto está sempre a sucumbir às pressões neoliberais que o envolvem.

Antes do PEC II, Sócrates afirmou que não havia nenhum problema com a crise. (Algo semelhante ao que disse Stiglitz: o problema do défice não se coloca da mesma maneira à Europa e aos EUA que aos outros países.) Sócrates aliou-se à sua esquerda para avançar com o TGV. Uma obra sem outro interesse que gerar emprego num sector importante em Portugal: a construção civil. E, ao mesmo tempo, contar com o apoio desse poderoso lobby.

Fracassou! A UE veio puxar-lhe as orelhas. O keynesianismo está morto e a Alemanha não irá usar os seus recursos para um acção dessa natureza. Não se sabem os pormenores, mas o zelo com que Passos Coelho subscreveu as medidas do governo, sugere que essa foi a moeda de troca. Sócrates exigiu o apoio de Passos em todas as medidas: desde a subida de impostos até à impopular medida de cortar nos salários dos ministros deixando intactos os dos assessores. Sócrates não se contentou com a abstenção de Passos, exigiu o voto favorável. Se não foi verdade, é difícil explicar porque o PSD não decidiu viabilizar o PEC com uma simples abstenção.

Mas opção neoliberal de Merkel deixou clara: isto é cada um por si! E a disputa entre capitais nacionais começou. A disputa entre a PT e a Telefónica pela brasileira Vivo, pode ser vista deste prisma. Aí, o keynesiano Sócrates voltou e impediu a venda da empresa. Mas foi mais longe, acusou a UE de ultraliberal e obrigou esta a defender-se de forma ridícula.

O problema é agora saber quanto dura esta nova coragem de Sócrates. Irá vacilar novamente? Estarão os partidos à esquerda dispostos a apoiá-lo contra a UE e o BES (ver aqui também)?

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6 de Julho de 2010 - Posted by | Economia, Ideologia | , , , ,

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