Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Luta de classes no Brasil

Após a eleição de Dilma Russeff, está na hora de passar à oposição. Sem nunca deixar de reconhecer o empenho do Partido dos Trabalhadores, durante os 8 anos de governo de Lula da Silva, em fazer política social, devo reconhecer também que fê-lo sem beliscar os lucros das elites económica e agrária do país. Como o próprio Lula disse, os ricos foram os que mais dinheiro ganharam no seu governo. De facto, Lula pôde juntar sindicalistas e latifundiários no seu governo.

Isso só pôde acontecer porque o seu governo se aproveitou de uma maior demanda de produtos agrícolas (cujo valor cresceu de forma sustentada de 2004) e ao saneamento das contas públicas levado a cabo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas longe de mim afirmar que FCH fez as reformas e Lula surfou na onda porque a onde foi soprada por ventos fora do Brasil: o crescimento económico da China, a transformação de açúcar em gasolina, o desmantelamento das políticas agrícolas na União Europeia e EUA, e a alteração dos mecanismos de formação de preços da soja (particularmente), do milho e do trigo… Sem demérito para a capacidade de reinvestimento do governo de Lula, é um erro crasso não ver a importância que a conjuntura internacional teve para o seu sucesso.

A crise na Europa coloca as coisas em outros carris. E não adianta nem insinuar que a crise já passou, a crise não é coisa do passado. Ora, embora a crise não afecte directamente o Brasil  – até porque as exportações brasileiras têm crescido à custa da Ásia e dos países vizinhos da América do Sul – ela abranda a competitividade das exportações pela valorização do real. Neste sentido, Dilma chega ao governo em condições totalmente distintas de Lula (agravadas pela falta de talento da nova presidente para falar em público). E, mais, ela não se poderá esquivar a tomar medidas para fazer face a esta situação logo nos seus primeiros meses de governo. As opções são simples

  • Basear o crescimento da economia brasileira no mercado interno, como pretende Lula, levando a sério suas declarações, tendo para isso que enfrentar-se às relações de poder existentes no país. Ou seja, o PT terá de tomar partido e abandonar a sua estratégia de coligação ampla.

Sem dúvida estamos perante uma luta de classes que vale a pena acompanhar. Até porque o debate eleitoral nos deixou no escuro nesta e noutras questões.

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1 de Novembro de 2010 - Posted by | Brasil, Economia | , ,

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