Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A classe média é uma classe?

Sempre me pareceu que a classe média é uma invenção política contra o pensamento (político) marxista. Uma classe enfiada entre os proletários (revolucionários) e os burgueses (a abater). O seu uso científico é sobejamente contestado dada a sua heterogeneidade. Os marxologos preferem falar de novo proletariado e pequena burguesia para referir-se aos profissionais especializados e aos profissionais liberais respectivamente. Os marxistas ignoram-no de todo.

Vou estender o primeiro post deste blog para analisar o assunto. Ali ficou subentendido que o modo como se apreendem desigualdades contínuas gera as classes. Contudo essa apreensão não é resultante da pura vontade das pessoas. Depende muito de como os problemas se apresentam e de como elas conseguem apresentar os problemas. Assim, numa crise económica como aquela que atravessa a Europa hoje, se estabelece logo uma oposição entre os trabalhadores e o mercado de capitais, entre proletários e capitalistas, tal como afirmou Marx. Não por acaso, vive-se hoje na Europa condições sociais similares aquelas em que Marx elaborou o núcleo central de sua obra: o Manifesto comunista e o 18 de Brumário de Luís Bonapart.

O Brasil apresenta uma situação distinta. A luta de classes, a existir, coloca-se apenas num aspecto que ainda que seja fundamental, está longe de ter a mesma relevância: o controlo da valorização do real face ao dólar. Mas, por outro lado, li algures a insinuação de que uma maneira de conter essa valorização , passa pela abaixamento da taxa de juros. Obviamente baixar a taxa de juros implica 1) o aumento dos preços (inflação) porque mais gente estará comprando a crédito; 2) a separação social entre aqueles que podem comprar a crédito (casa, carro, electrodomésticos, pacotes de férias, …) e o que não podem. Uma solução deste tipo, o abaixamento da taxa de juros, fará surgir uma classe média a partir das camadas mais baixas da sociedade, separando aqueles que podem causar e acompanhar a inflação com recurso ao crédito daqueles que serão atropelados por essa inflação. Se esta hipótese é verdadeira, a unidade desta classe está dada não por alguma semelhança na sua relação com o trabalho, mas por sua relação com o crédito (aspecto que sempre escapou da análise, ora feita com base nos rendimentos, ora desfeita pela heterogeneidade de contingências que implica a sua relação com o  trabalho).

Não obstante, a América Latina e o Brasil em particular têm pânico da inflação e da especulação a ela associada. Assim que se deve esperar para ver se os políticos vão gerir este problema.

  • Aumentar os processos de transferência de renda reforçando a dicotomia entre pobres e ricos… aquela luta de classes cara aos marxistas;
  • Baixar a taxa de juro em nome da competitividade e de uma classe média que surgirá então na interface ente as duas classes anteriores.

Enfim, como disse anteriormente, a divisão sociedade em classes depende do contínuo de  desigualdade existente e  da visão que políticos e as pessoas como têm sobre esse contínuo. Contudo essa visão não é independente dos problemas que se colocam a uma sociedade. Pois é no modo como os políticos dividem a sociedade em classes que alicerçam suas propostas de solução para os problemas que estão colocados.

Anúncios

22 de Novembro de 2010 - Posted by | Brasil, Economia, Metodologia | ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: