Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Cunhal e a Checoslováquia

Poucos dias após a morte de Álvaro Cunhal, foi organizado um debate televisivo sobre a vida política deste homem. Obviamente, foi acusado de ser um servo dos interesses da União Soviética. E logo foi condenado pelo apoio que deu à invasão de Praga que pôs fim à sua primavera.

Nesse momento o político Pacheco Pereira deu lugar ao historiador. Chamou a atenção para dois aspectos. Primeiro, que a nota da célula do PCP em Paris (onde estava Cunhal) foi muito mais moderada que o apoio radical do PC francês. E, mais, a referida célula dependia do dinheiro da URSS para se manter. Em suma, Pacheco Pereira deixou subentendido que a nota era mais motivada por interesses do que por convicções.

Hoje, um artigo no Publico veio reforçar essa ideia que defendeu Pacheco Pereira. Resultado de uma entrevista ao mais recente biógrafo do histórico comunista, Adelino Cunha, o Público conta:

Cândida Ventura é a primeira mulher a ascender ao secretariado do PCP, em 1944, e nos anos 50 opõe-se às orientações de Júlio Fogaça. Foi acusada pela direcção de “trabalho fracionário” e, pouco depois, estava presa pela PIDE. (…) Doente, consegue ser libertada e ir tratar-se a Londres. (…) Cunhal escolheu Cândida Ventura para representante do PCP na Checoslováquia. Aceitou, apesar da ruptura interior com o comunismo. Tornou-se agente dupla na Checoslováquia e uma apoiante incondicional da resistência checoslovaca após a invasão dos tanques soviéticos. (…)

E é na Checoslováquia que Cândida Ventura protagonizará uma história inacreditável em que serve de veículo consciente de Cunhal para proteger Alexander Dubcek. (…) Cunhal admite então que a contenção da revolta e do clima anti-soviético na Checoslováquia pode passar pela eliminação física de Dubcek. Uma “inconfidência” que não é um deslize inconsciente de Cunhal, mas sim um aviso que fez, porque quis e porque sabia que Cândida Ventura o iria fazer chegar ao destino.

A relação entre o PCP e Moscovo não é tão simples quanto nos querem fazer crer. Quanto afirma abertamente o PCP ou quanto quer fazer quer a direita. Conhecendo de perto antigos dirigentes, encontramos muitas decepções com Moscovo. Também muitas dívidas, a começar pelas doações que equiparam as cooperativas alentejanas de tractores e outras máquinas. Foi sem dúvida uma relação mal resolvida.

Por isso, enquanto outros PC’s no mundo quebravam com o Muro de Berlim, no PCP pode manter-se. A sua relação com a URSS não era forte o bastante para que esta o arrastasse para baixo.

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24 de Novembro de 2010 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

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