Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O que se passa no Rio de Janeiro?

No mais recente bairro assegurado (tanto no sentido da segurança como no sentido dos preços) para a elite, a Lapa, sinto-me seguro. Hoje vai cantar Lenine ao ar livre, gratuitamente, e eu talvez vá! Não deixo de ouvir os helicópteros sobrevoando a cidade, nem de ver nas imagens da Globo as operações policiais nas favelas. Cerca de  trinta de carros e autocarros incendiados; vinte e cinco traficantes mortos (todos traficantes?); quase duzentos presos; e, números oficiais, duas pessoas mortas, inclusive um criança, por balas perdidas.

O que pensar de tudo isto? É complexo. Por um lado, os carros em chamas foi uma provocação de um cabeça do narco, em retaliação contra a estratégia das Unidades de Polícia Pacificadora  (UPP). Ao mesmo tempo, aproveitando a oportunidade para uma “reacção desmedida”, a polícia ocupou mais uma favela – a Vila Cruzeiro – e, possivelmente, amanhã repetir-se-á o mesmo em várias outras: o Complexo do Alemão. Como negar ao Estado o monopólio da violência legítima de um território? Como exigir o braço social do Estado – saúde, educação, etc. – num lugar onde não chega o seu braço legal, onde a lei é ditada pelo narcotráfico?

Por outro, o principio de disparar antes de perguntar, antes mortos do que presos. As balas disparadas do alto de um helicópteros ante criminosos em fuga. Um autêntico jogo de playstation para o sniper da polícia tirou o direito de julgamento a vários homens armado – condenados à morte num país que se orgulha de não ter pena de morte. Enfim, pior, o facto de terem empurrado os narcotraficantes numa favela onde vivem milhares de civis. Alguns destes, amanhã serão vítimas do fogo cruzado.

Além disso, isto tudo acontece sem que outras medidas de combate ao tráfico de drogas e de armas mostrem resultados. Combate-se o vendedor na ponta final, no retalho ou varejo, o peixe miúdo, enquanto o combate a transporte e ao peixe graúdo não existe. Mas é mais: nem todo o peixe miúdo é combatido. Somente aqueles que atrapalham o sector imobiliário do Rio de Janeiro. Somente quem está perto de um bairro onde os preços dos apartamentos não param de subir. Claramente, protege-se, por um lado, a especulação imobiliária e, por outro, os eventos internacionais como os a copa do mundo de 2014 e os jogos olímpicos de 2016.

Tudo isto não chega para dizer o Estado não deve reocupar os seus territórios, a começar com a polícia (mas logo exigindo o direito e os serviços públicos). Tudo isto não serve para afirmar que seria preferível deixar impune a acção do narcotráfico a fazer o que estão fazendo.  Por isso, gostava de citar dois políticos da esquerda brasileira. O deputado federal Chico Alencar, do PSOL

Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos. Mas sem políticas públicas plenas para as áreas e populações ditas ‘libertadas’ o potencial de degradação da vida continuará, ao invés da propalada ‘pacificação’. O ‘sacode’ do banditismo – sempre considerado ‘acuado’ pelas autoridades – só semeia pânico pelo fato de continuarem muito bem armados seus ‘ativistas’: sem desarmamento e corte das fontes desse abastecimento nada avançará. (fonte)

E do deputado estadual Marcelo Freixo, do mesmo partido

Nós temos a tradição de uma polícia violenta e uma criminalidade com armamento muito pesado no Rio de Janeiro. Num momento de crise como este a Polícia deve estar na rua e algumas perdas são inevitáveis, infelizmente. Mas ao longo do tempo o que poderia e ainda deve ser feito é um enfrentamento ao tráfico de armas muito mais estratégico do que se tem. Hoje temos um enfrentamento às favelas e não ao tráfico de armas. Não tem nenhuma ação no que diz respeito à entrada de armas, sobretudo na Baía de Guanabara e nas estradas. O enfrentamento ao tráfico de armas é frágil, ocorre mais no destino do que no caminho. E o destino é sempre o lugar mais pobre. (fonte)

Enfim, mais do que criticar a má solução de hoje, há que apontar o que não foi feito ontem e o que fazer amanhã.

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26 de Novembro de 2010 - Posted by | Brasil, Segurança Rio | , ,

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