Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

E o Rio continua indo…

Quando a operação militar do BOPE subiu a Vila Cruzeiro empurrando os narcotraficantes para o Complexo do Alemão, fiquei apreensivo. Encurralaram os criminosos num conjunto de seis favelas onde a polícia já tem história de intervenção atabalhoada. Mas logo isso pareceu previsto, com o reforço da polícia com mais 800 militares e equipamento. Uma medida, sem duvida, desproporcionada e desajustada para enfrentar os mais recentes crimes no Rio. Além de somente hoje a polícia ter feito o que deveria ter feito desde início: prender os intermediários entre o autor da ordem e os executores. Tudo isto deixa claro que o governo do Estado decidiu aproveitar a oportunidade para outros fins: retirar território ao narcotráfico. E, se é assim, não é como resposta a uma série de crimes que esta acção deve ser vista, mas nas suas intenções aparente.

Quando a disputa que se coloca é por território, não há como estar de outro lado que o da polícia. Sem dúvida, discordo de uma polícia que faz tiro ao alvo a criminosos em fuga. Sem dúvida, é uma ofensa ao bom senso o facto do território em disputa ser escolhida à medida das conveniências da industria imobiliária. Mas, apesar disso, não se pode ter outra opinião. Dizer que o Estado não deve disputar um território com o narcotráfico – seja em nome das vítimas de balas perdidas, seja afirmando que a polícia não difere dos narcotraficantes nos maus tratos à população – … Dizer isso, é aceitar a presença de um outro Estado, de um outro direito (no jornal da Globo uma moradora da Vila Cruzeiro falava dos tribunais dos narcotraficantes onde eram julgados os diferendos da favela). É, enfim, negar a presença do Estado do Brasil para aceitar a presença de um proto-estado do narcotráfico. A questão é que por muito que o Estado de direito dificulte a mobilização social e torne difícil as eleições para as minorias, o proto-estado narcotraficante nem sequer coloca essa hipótese. Então como exigir direitos, educação, saúde, isenção de um Estado que não está ou de um proto-estado que não tem?

Obviamente, o Estado de direito funciona mal. A esquerda perde sistematicamente todas as lutas nesse Estado. Vale a pena então defender a presença de um Estado que não nos dá muito pouco espaço? Vale! Vale porque é contra um proto-estado que não nos dá espaço nenhum. Um político é corrupto, mas no proto-estado narcotraficante nem é possível falar de corrupção. Há maus políticos mas também há cassassão de mandato e há CPI’s. Há tudo isso que de bom tem muito pouco. Do outro lado não há nada.

Uma má solução de hoje que nos permite desejar um amanhã. Penso que foi de acordo com esta lógica que Chico Alencar escreveu “Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos“. Mas a polícia do Rio de Janeiro não parece ter condições para manter o território ‘conquistado’. E o que poderia ter sido o início de uma nova era na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, arrisca-se a ser apenas mais uma demonstração de forças da polícia e do exército. Mais 34 pessoas condenadas à morte sem julgamento para que tudo se repita daqui a 1 ano. Porque afinal, o Rio não pode chegar assim à Copa do Mundo.

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27 de Novembro de 2010 - Posted by | Brasil, Segurança Rio | , , , ,

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