Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Classe média e criminalização da pobreza

A minha preocupação com a ideia de classe média é recente e genuinamente carioca. Sempre achei que se tratasse de um conceito politicamente produzido contra o marxismo. E, de facto, foi… pelo menos produzido politicamente pelos institutos de estatística do Estado no início do século XX. Contra o marxismo, talvez. A proximidade da Revolução Russa sugere. Faz-nos falta uma história da ideia de classe média para que o possamos apreciar.

Se assim fosse, a classe média seria não mais que uma classe pobre enganada. O seu comportamento político, uma ilusão das massas. Mas parece-me que a coisa é mais complexa que isso. E quando a classe média e os grupos pobres do Rio de Janeiro estão numa disputa, tão bem sintetizada no desenho de Latuff abaixo, a ideia de classe média merece-nos mais atenção. Sobretudo porque a disputa entre as classes médias e pobres não pode ser de oposição como sugere o desenho.

A ideia de classe média foi tema de um post escrito aqui há cerca de uma semana. De lá para cá, uma curta pesquisa na informação de pouca qualidade que se encontra na Internet sobre o assunto, apenas reforçou a minha impressão que o conceito é muito mais político e do senso comum que científico. Na verdade, a classe média agrupa duas classes que, do ponto de vista da inserção na produção (critério marxista para definir classes), nada tem de comum. Por um lado estamos falando de um novo proletariado – os profissionais qualificados ou trabalhadores de colarinho branco – e, por outro de pequenos burgueses – ou trabalhadores por conta própria e pequenos empresários.

Não obstante, olhando a estrutura social para lá das relações estabelecidas no processo de produção, considerando, de forma geral, as relações como os factores de produção elas têm bastantes coisas em comum. Elas ocupam um lugar na esfera produtiva que, embora distinto, exige formação escolar elevada. O nível de renda é suficientemente elevado para garantir acesso a crédito para consumo e, no caso da pequena burguesia, para o investimento. Mas se for extensível a conclusão, retirada nos estudos sobre a agricultura familiar na Europa, a todos os outros pequenos investidores, não existe uma separação clara na gestão financeira das esferas produtiva e reprodutiva. Por isso, as diferenças imagináveis por um grupo investir e outro não são menores do que aparentam.

A classe média é, em resumo, uma fracção da população que, beneficiada pelo crescimento económico típico da fase virtuosa do ciclo económico, se separa das camadas pobres da população. Partindo do proletariado, ela vê no seu sucesso (face à imobilidade de outros) como a prova da virtude de suas qualidades pessoais. Por isso, se os pobres são pobres é, no seu modo de ver, porque merecem. E sendo os principais consumidores dos produtos da industria - a começar pela industria imobiliária – a sua associação com as elite burguesa é estreita. Essa associação entre empresários e consumidores rapidamente se vira contra os trabalhadores. Tarde ou cedo, programas de alívio da pobreza, como o Bolsa Família vão ser alvo da crítica da classe média. Para eles, o seu sucesso deve-se apenas ao seu esforço individual. E até o facto de certamente o seu esforço individual não ter sido sequer possível sem o apoio do Estado – em programas como o Bolsa Família – eles não vão reconhecê-lo. Qualquer programa de apoio do Estado será, para eles, sustentar malandro. Em breve eles deitarão por terra os instrumentos sociais que os ajudaram a erguer-se, impedindo outros de fazer o mesmo.

Sendo uma classe em movimento de ascensão, agem de acordo com a posição social onde esperam chegar um dia, e não com a posição que realmente ocupam. Na verdade dificilmente chegarão onde julgam estar. Pelo contrário, eles estão mais próximos do proletário do que julgam. As diferenças de estilos de vida somente são possíveis graças ao crédito e a uma opção por poupar regularmente para gastar pontualmente de forma visível. Daí a necessidade de reforçar essa diferença e opor-se a eles; daí o seu conservadorismo. Mas, ao mesmo tempo, isso possibilita que muitos pobres, com uma renda mais estável, invistam em estratégias para confundir-se com a classe média. Em resultado, a classe média política será sempre maior que a classe média real (económica).

A disputa social sobre o grande abismo entre proletários e capitalistas, pobres e ricos, é assim transferida para a pequena diferença entre pobres e classe média. Porque é pequena, é aparentemente mais superável e a superação pode até fazer-se a título individual. Daí a necessidade da classe média em marcar essa diferença e o esforço da classe pobre em tentar superá-la. O comportamento da classe média, infelizmente, e por razões que ultrapassam o papel da comunicação social mas que são reforçadas por esta, continuará a reforçar a criminalização da pobreza. Aliás, este conceito que serviu para retratar o papel de um Estado defensor das elites contra uma imensa maioria de pobres que, pela sua condição, se poderiam rebelar a qualquer momento, está hoje escondendo a nascença de uma segunda fractura social que se coloca entre a classe média e os pobres.

A criminalização da pobreza, isto é, o uso da força policial para manter uma fractura social entre dominantes e dominados – e, por ende, garantir a mão-de-obra barata para a economia – deixa de colocar-se ao serviço daquela diferença que separa a elite económica dos outros, para colocar-se ao serviço da classe média contra os pobres. A classe média assumirá o ónus da repressão contra os pobres, permitindo à elite descansar. É que para a classe média, o que a separa da classe burguesa é tão grande que superá-lo é quase impossível. As suas preocupações vão para a diferença que a separa da classe pobre, diferença essa que se encontra permanentemente ameaçada.

O trabalho da esquerda será difícil. Se a luta de classes se transpõem para a divisão entre pobres e classe média, as duas partes são numericamente equivalente. Se os pobres, em número, superavam os ricos, as coisas tornam-se mais complicadas quando uma boa parte dos primeiros se transforma em classe média e se associa aos segundos. Além disso, a esperança dos pobres em, individualmente, chegar à classe média os desincentivará a perseguir estratégias colectivas de superação da pobreza. Eles tornam-se mais difícil de mobilizar.

O esforço da esquerda será maior. O marxismo insuficiente. Como diz um amigo, o marxismo vê a preto e branco, óptimo numa época de convulsão social, onde é difícil manter a concentração no essencial. Por isso ele agora está a ser tão recuperado numa Europa em crise. Mas quando o momento é marcado por uma economia virtuoso, é preciso identificar as matizes, os pormenores, tudo isso que a divisão do mundo em apenas duas classes permanentemente em conflito não permite ver. Ou isso, ou esperar que uma crise económica traga a velha divisão entre proletários e burgueses, entre capital e trabalho, novamente para o primeiro plano.

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28 de Novembro de 2010 - Posted by | Economia, Ideologia, Sociedade Brasileira | , ,

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