Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Violência: limites do discurso de esquerda

O conflito entre o Estado (polícia e exército) e o narcotráfico no Rio de Janeiro mostra bem os problemas que a esquerda tem em colocar politicamente a sua visão de mundo. Os debates entre esquerda e direita não fazem uma tese e uma antítese; eles não são sequer confrontáveis. Enquanto a direita se coloca no plano do hoje, do curto prazo, a esquerda se coloca no plano do ontem e do amanhã, isto é, das reformas institucionais que somente poderão suceder a médio ou mesmo longo prazo. Assim, a ideia de que “não defendemos criminosos, mas o que a política está a fazer não resolve” não passou para a população. Culpa da comunicação social? Seguramente tem a sua cota parte. Mas é mais culpa de uma sociedade – e já nem sei se é característica do capitalismo ou se é inevitável – onde o “urgente não deixa tempo para o importante” (Quino).

Sem ter conseguido mostrar a existência destes dois planos (duas temporalidades), mais vezes confundindo-os, foi acusada pela vox populi de defender criminosos. Mas, pelo contrário, a esquerda sabe que a polícia deve agir by the book, pese que esse book tem muito poucas virtudes e necessite de ser reescrito. Mesmo assim o contrário é não agir. E não agir é fazer desaparecer uma instituição e tornar inviável qualquer política de segurança, boa ou má, pela simples ausência de um agente para implementá-la. Por isso, políticos destacados de esquerda escreveram explicitamente “Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos” ou “Num momento de crise como este a Polícia deve estar na rua e algumas perdas são inevitáveis, infelizmente“. Porquê? Porque quando é necessária uma resposta urgente “não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza“.

Mas esta é a única oportunidade de que dão para falar do combate ao narcotráfico. Por isso, a esquerda respondeu a perguntas que não se colocam quando fingia responder às perguntas colocadas. Com isto não quero dizer que a esquerda não disse nada de importante. Bem pelo contrário. Somente que o momento em teve para falar foi um em ninguém estava preparado para ouvi-las. Mas pela sua importância vale a pena repetí-las:

  • Reforço institucional da polícia. Mais investimento em inteligência e menos em força. Combate à corrupção e às suas relações com a segurança privada ilegal (milícias).
  • Combate ao transporte de drogas e armas, não às  favelas, isto é, a um varejo capilar, um peixe miúdo que se reproduz facilmente.
  • Ao lado da polícia (braço direito e masculino do Estado) devem estar as políticas sociais (braço esquerdo e feminino). Somente as políticas sociais e o emprego podem evitar que o narcotráfico continue a recrutar jovens nas favelas.

Em tudo isto, resta uma boa notícia:

Um processo em curso levará a uma pacificação da cidade mais rápido do que o que se supõe. De facto já tinha ficado com essa ideia quando li que as UPP reduzem as despesas dos traficantes. É, portanto, do interesse dos traficantes terminar com a guerra com a polícia. Esta ideia lí-a hoje no texto de Luiz Eduardo Soares: “É excessivamente custoso [ao narcotráfico] impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica” (fonte). O fim insegurança no Rio de Janeiro parece ter tudo para acontecer e sem sequer exigir uma grande reforma das polícias.

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28 de Novembro de 2010 - Posted by | Brasil, Segurança Rio | , ,

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