Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Preconceito sobre o preconceito

Um preconceito muito generalizado sobre o preconceito é que ele é ruim. O preconceito machista, o preconceito racista, etc. Claro que todos entendemos que o preconceito é um pré-conceito, uma ideia feita que usamos sem pensar muito nela, e os pré-conceitos são tantos que não podem ser todos ruins. Mas o que interessa mesmo é cuidar dos preconceitos, esses sim que justificam as injustiças no mundo.

Mas, olhando de perto a coisa é mais complexa. Suponhamos, por exemplo, o preconceito machista que atribui  ao homem a rua e à mulher a casa. Por muito conscientes que estejamos das consequências desse preconceito, fica difícil fugir dele quando se trata de comprar um presente para o filho ou filha de um amigo. É impossível pensar em dar uma bola a uma menina ou um fogão de faz-de-conta a um menino. O preconceito funciona porque segui-lo é “sucesso” imediato garantido; contrariá-lo é arriscar-nos ao fracasso. As favas estão contadas, como dizia a minha avó. Sabe-se que a menina vai gostar de uma boneca e o menino de um carro, embora isso reforce o preconceito machista. Tentar ser diferente implica muita imaginação e conhecer muito bem a criança. E mesmo assim pouca coisa nos garante que o um presente “afirmativo” (anti-preconceito) não vai ser “descriminado” pela criança.

Com isto não quero afirmar que o preconceito é bom. Somente que como todos os pré-conceitos ele oferece uma saída fácil para os problemas quotidianos – os preconceitos oferecem algo de bom e de útil. Uma saída cujos resultados estão previstos, assim como a reacção dos outros que garantem esses resultados. Outro exemplo: imaginemos um casal jovem em que os dois trabalham no balcão de um banco e o filho de 1 ano adoece. Um deles terá de ligar ao patrão para dizer que não pode ir trabalhar hoje. Quem terá maior capacidade de negociação com o patrão? Com certeza a mulher! No mundo actual o homem seria confrontado com um “porque não fica a sua mulher em casa?”. Em suma, sempre que recusamos a um pré-conceito, a nossa vida complica-se; se tentássemos recusar todos eles, ela tornava-se impossível.

O preconceito sobre o preconceito tem consequências: atribui o problema ao modo de pensar das pessoas ou a um sistema indefinível. Por outras palavras, preocupa-se apenas em formar indivíduos não preconceituosos e quase nunca com a geração de alternativas para os pequenos problemas que o preconceito resolve. O trabalho contra o preconceito é predominantemente orientado para a formação das pessoas e pouco para a estruturação de soluções não preconceituosas aos problemas que apelam para esses mesmos preconceitos. Em resultado disso, toda a propaganda investida contra o preconceito desbarata-se contra o muro de pequenos e grandes acontecimentos que o reforçam. Como convencer um jovem casal que o trabalho do homem e da mulher são iguais, quando o homem aufere de um salário mais elevado e progride mais rapidamente na carreira?

Por certo, é preciso combater o preconceito nas mentes e nas instituições. Mas confesso, a despeito de críticas que possa ser alvo, que acredito mais nos ganhos obtidos pela transformação das instituições do que na transformação das mentalidades. Estas últimas parecem-me mais resultado das simples situações do dia-a-dia do que de uma mensagem bem formulada e concreta, mas ao mesmo tempo difícil de localizar, à qual nos referimos empregando mal o termo de ideologia ou de hegemonia. Equivocamo-nos quando julgamos que o preconceito foi colocado na cabeça das pessoas e que uma tomada de consciência pode retirá-lo de lá. O preconceito somente resiste ao tempo porque é alimentado pelos olhos todos os dias!

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29 de Novembro de 2010 - Posted by | Ideologia, Metodologia | ,

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