Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Inflação no Brasil

Continuo, sem sucesso, à procura de uma análise de esquerda da conjuntura económica brasileira: valorização do real, ameaças de inflação, a decisão do Banco Central em aumentar o depósito compulsório, o descontrolo das contas do Estado, …  Porque hoje a economia brasileira enfrenta o grande papão da América Latina – a inflação – e somente no Estadão (um jornal ultra-reaccionário) tem dado a devida atenção ao tema. E claro, hoje em dia,  têm-se pânico da inflação: depois da experiência traumática de uma inflação de 200% ao ano, uma inflação de 6% ao ano já põe as pessoas em pânico. Do pouco que oiço por aí, vale tomar 3 notas:

1. Um fonte de inflação é o aumento dos preços dos alimentos. Isto deve-se a muitos factores, inclusive ao facto de ser uma tendência mundial. Mas no Brasil, principalmente, deve-se ao facto de muita gente que não comia, passou a comer. O programa Bolsa Família e o crescimento económico permitiram a muitas pessoas saírem da indigência e começarem, pelo menos, a ter dinheiro para garantir 3 refeições por dia. Não por acaso, ouve alguém do PT (não recordo o nome) que disse que o os alimentos deveriam sair do cálculo da inflação.

2. A outra fonte, tem a ver com a maior disponibilidade de crédito no país. A taxa de juro alta associada à crise na Europa, fizeram os capitais globalizados transferir-se para o Brasil. De modo a baixarem as cotas de pagamento e a garantir que mais gente pedisse financiamento, os bancos alongaram a duração dos empréstimos e o governo avançou com incentivos ao crédito. O mercado da habitação é particularmente importante porque é aquele mercado de crédito que até a classe média baixa tem acesso – hoje pode se financiar uma casa com cotas mensais de 500 reais.

O governo parece ter actuado aqui, aumentando o depósito compulsório dos bancos, isto é, a quantidade de dinheiro que cada banco deve ter depositado no Banco Central. Contudo, já afirmou que não vai eliminar o programa Minha Casa Minha Vida (uma medida de incentivo ao crédito para a compra de casa por pessoas com menos recursos) – o que supõe que alguém pensou nisso como forma de combate à inflação.

3) Existe também quem fale nas contas do Estado. Claro, sendo a inflação causada, antes de mais nada por um aumento da demanda não acompanhado pela oferta, o Estado tem sempre culpa. Tem porque é o maior consumidor: consome papel, estradas, portos, etc. E consumo tanto que acaba gerando um volume considerável de empregos que consome outra vez. Mas aí, várias perguntas: como se repartem as despesas do Estado entre financeiras (pagamento de dívida), militares (ex. ocupação do Haiti) e sociais (ex. Bolsa Família)? Qual é a evolução na arrecadação de impostos e qual é o refreamento das exportações provocado pela valorização do real em face do dólar?

A inflação é produto de uma redução da desigualdade social  Brasil. E, contudo, o governo não pode deixar de travar a inflação por todos os problemas que dela advém. Mas, a forma como o faz pode ser simplesmente travar essa redução da desigualdade ou uma acção inteligente para passar o ónus do combate à inflação para o topo da pirâmide da sociedade. Não obstante, falta-nos a informação para lutar pela segunda alternativa.

Post script (1 hora depois): Acabo de ver o programa “Agenda económica” na TV Senado, com Raul Velloso a analisar exactamente estes assuntos. Dados de uma análise de direita, enquanto não descubro o que pensa a esquerda.

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11 de Dezembro de 2010 - Posted by | Brasil, Economia | , ,

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