Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Crítica do feminismo

Tenho pouco a acrescentar. Acabo de ler o artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história“, de Nancy Fraser, e não posso estar mais de acordo com as suas reflexões.

O feminismo, como outros movimentos que marcaram o Maio de 68, começou por prometer um alargamento do unilateralismo economicista do discurso marxista de luta de classe. Terminou, no entanto, a defender um “culturalismo igualmente unilateral” (p. 23) “precisamente no momento em que as circunstâncias requeriam atenção redobrada à crítica da economia política” (p. 24), ou seja, precisamente no momento em que o neoliberalismo se afirmava como modelo económico. A segunda vaga do feminismo, forjada contra os o capitalismo de Estado da década de 1950 e 1960, terminou fornecendo as bases para o capitalismo neoliberal das décadas de 1980 e 1990.

Indo além do texto, deve reconhecer-se que o feminismo contribuiu (com outros movimentos do Maio de 68, mas mais que qualquer outro) para uma renovação da esquerda, embora em dois sentidos contraditórios. Por um lado, permitiu uma maior compreensão das formas de dominação que fundamentam as injustiças sociais. Por outro, estendeu as crítica a todas as formas de dominação hierárquica e dominação, incluindo nelas a meritocracia. Esta segunda direcção anulou a primeira, ou mais exactamente, agravou a divisão entre teoria e prática que já se vinha verificando na esquerda em resultado de uma divisão entre marxismo prático (o da III Internacional) e marxismo académico (fundado pela Escola de Frankfurt). Isto é, se por um lado abriu novas perspectivas para a compreensão das formas de poder, dominação e violência, por outro desdenhou a acção política informada.

De facto, a meritocracia é uma forma de organização elitista da sociedade. Ter uma teoria revolucionária – para usar os velhos termos leninistas – implica a existência de revolucionários profissionais, uma elite dedicada à construção dessa teoria e à direcção dos outros. Mas, visto de outro ângulo, existem custos de excluir o conhecimento especializado da prática política. Basta, por exemplo, ver o quanto a esquerda se afasta de problemas políticos complexos, como das medidas de controlo da inflação. (A complexidade e importância do tema deve-se a que, se a inflação prejudica aqueles que têm empregos informais e mal remunerados, as medidas de controlo da inflação são custosas e reduzem a  disponibilidade de recursos para empregar em políticas públicas).

Em suma, resolver a contradição entre meritocracia e democracia é o principal desafio interno da esquerda de hoje!

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23 de Dezembro de 2010 - Posted by | Ideologia, Mundo | ,

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