Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Feminismo da diferença?

Nas minhas incursões sobre o feminismo, recentes e pouco profundas, deparei-me com um  texto de Victoria Sendón de León num blog de uma amiga (que, a propósito, recomendo).

A ideia de feminismo da diferença, ou de combate à desigualdade no reconhecimento da diferença, ou – ainda de outro modo – a diferença entre diferença e desigualdade é um problema que me interessa. Porque tudo o que leio me leva a crer que vemos por pares de oposição: homem/mulher, adulto/criaça, velho/jovem, antigo/novo, fora /dentro, rico/pobre, direita/esquerda, alto/baixo, etc. João Aniceto atribuiu isso ao facto de termos duas mãos, dois olhos, dois pés, enfim, de o nosso corpo poder ser repartido em duas metades. Mais tarde, pelas minhas leituras de Pierre Bourdieu, fui levado a crer que essas oposições implicam sempre um dominante e um dominado.

Em suma, esperava do texto uma janela para que nos permita sair do quarto-escuro do pensamento dicotómico.

De facto, a autora demanda-nos sair dele. Crítica o feminismo da igualdade, o de Simone de Beauvoir, de “querer transformar as mulheres em homens”. O universo (a economia, a cultura, a religião, etc.) é masculino e querer introduzir a Mulher nesse universo (competitivo, individualista, insustentável, etc.) é obrigar a mulher a ser tudo isso, a ser homem. A superação implica a construção de uma visão do mundo, de uma ordem simbólica, desde as mulheres – da pluralidade de femininos, diferente da masculina (que, por acaso, a autora não reconhece pluralidade).

A primeira questão que me levantou o texto foi a de um descolamento do mundo simbólico – o mundo das ideias – do mundo material ou do mundo das coisas. Compreendo que é muito pouco exigir a entrada da mulher no mercado de trabalho, ou pior, da mulher na política por mecanismos de quotas, sem alterar esse mercado de trabalho e essa política organizada por valores masculino (embora – acrescento – não todos os masculinos, mas um certo tipo: branco, escolarizado, empresário, empreendedor, etc., no qual eu, homem, tampouco me reconheço).

Por outro lado, me parece produto de um posmodernismo de má qualidade que esse mundo simbólico comece e termine nele mesmo. Como se o material não produzisse o simbólico; como se a criança nascida e criada numa família cujo pai trabalha na rua e a mãe trabalha em casa não enraizasse com a ideia que o lugar do homem é na rua e o da mulher é na cozinha. Como se fosse apenas por palavras que os pais machistas educassem crianças machistas. Podemos ficar aqui a jogar o tradicional jogo do ovo e da galinha, mas – como já tentei abordar noutro post – o material determina mais o simbólico que o inverso.

Daí, que ao contrário do que defendi em outros momentos, hoje acredito nas cotas na política (que a autora desdenha por não alterarem a ordem simbólica da política). O meu argumento é que ver mulheres na Assembleia da República irá permitir que as mulheres cá fora começassem a reparar que a política não é só coisa de homens e, deste modo, a não aceitarem ser excluídas da política.

A segunda questão coloco é o facto da autora ter afirmado, no fim do texto, ter conseguido superar o pensamento dicotómico. Usa uns quantos parágrafos e faz referencia a um outro texto seu. Fiquei curioso, mas céptico. Tentarei conseguir o texto. Mas fica a pergunta: como quem superou o pensamento dicotómico, somente conseguiu explicar o que é o feminismo da diferença pela crítica ao feminismo da igualdade (de Beauvoir)? Ao opor pensamento holístico a pensamento dicotómico, não está a autora a ser dicotómica e não holística?

Resta-me ceder a um intelectualismo desnecessário e que, pese aos meus esforços, não consigo evitar. E citar Bourdieu (que, de resto, Victória Sendón cita igualmente):

A universidade da Califórnia, em Santa Cruz, espaço destacado do mundo ‘posmoderno’, arquipélago de colégios dispersos numa floresta que só se comunicam pela internet, foi construída nos anos sessenta, no alto de uma colina, nas vizinhanças de uma estância balnear para aposentados ricos, sem industrias: como não acreditar que o capitalismo se dissolveu num ‘fluxo de significantes desligados de seus significados’, que o mundo é povoado de ‘cyborgs’, ‘cibernetics organisms’, e que estamos entrando na era da ‘informatics domination’, quando se vive num paraíso social e comunicacional, onde foi apagado qualquer vestígio de trabalho e de exploração

Leiam o texto de Victória Sendón de León e retirem-me a dúvida: estou a ser machista ou ela escreve da comodidade da sua poltrona de douta filósofa?

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29 de Dezembro de 2010 - Posted by | Feminismo, Ideologia | , ,

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