Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A vitória da abstenção

Cerca de um quarto da população elegeu Cavaco Silva. Quando o PS não faz campanha e assume a derrota antes da campanha começar, a vitória de Cavaco não é surpresa. O que surpreende é o elevadíssimo nível de abstenção: 53% dos eleitores portugueses não compareceram às urnas.

Esta elevada taxa de abstenção não pode ser vista como uma crítica consciente ao sistema eleitoral schumpeteriano, ou qualquer demanda revolucionaria por novas instituições democráticas. Ela é resultado do afastamento das pessoas da política. Quem se absteve não sabe como escolher ou, mais exactamente não sabe porque razão escolher este ou aquele candidato.

Enfim, a democracia tornou-se uma ditadura consentida. As elites (políticas e empresariais) aprenderam bem no fascismo que o mais eficaz acto de censura não é a caneta azul. É a auto-censura daqueles que se orgulham de querer não saber de política. Basta somente dizer que os políticos são corruptos e, na medida certa, promover a corrupção, para aumentar o número de auto-censurados.

Ao mesmo tempo, toda a política se torna um problema de competência. Nunca se discute se se faz A ou B. Nunca se questiona, por exemplo, as alternativas a esta sacrossanta obediência aos mercados internacionais. Isso não interessa. Já não se discute política, discute-se competência. Mas quem é mais competente nesse mar de corruptos? Nenhum, para o analfabeto político. Por isso ele se abstêm.

Eis que alguém diz “existem alternativas” ! Esse é censurado.

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Post script: Entretanto Passos Coelho perde a oportunidade de exigir eleições antecipadas depois da esmagadora vitória de Cavaco sobre Alegre. Lembremos que o anterior Primeiro-Ministro socialista, António Guterres, foi praticamente obrigado a pedir demissão após uma derrota em eleições municipais. Porque será que uma derrota ainda mais esmagadora, numas eleições agora nacionais, deixam Sócrates tranquilo?

É que Sócrates vai sabendo negociar os seus apoios, deixando o PSD órfão de apoios na elite empresarial. Teoria da conspiração? Bem provável. Mas não fui eu que disse que não se é governo sem apoio do BES. Assim que Passos Coelho parece seguir esperando o toque de partida de Ricardo Salgado.

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24 de Janeiro de 2011 - Posted by | Ideologia, Partidos, Portugal | ,

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