Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Competência, corrupção e abstenção

Num post anterior relacionei abstenção com corrupção, argumentando que a corrupção cumpre a função de afastar as pessoas da política. Essa é a censura dos tempos modernos que liberta os políticos das amarras para governar à vontade. Hoje quero explicar que esse argumento não se baseia em uma teoria da conspiração. Não quero atribuir qualquer maquiavelismo a este facto. De fato, as elites promovem mais a discussão sobre corrupção do que a corrupção em si.

Para entender isto, é preciso distinguir corrupção no seu sentido genérico – a ideia generalizada de que os políticos são corruptos – da corrupção de facto. Elas são distintas e é a primeira de que me ocupo. Foi essa distinção, entre o geral e o concreto, que permitiu a sobrevivência dos curandeiros. Eles podiam falhar: era a ocasião que não era própria ou o curandeiro que não era puro. Haveria sempre um curandeiro melhor que aquele, e a “magia” que o curandeiro utilizava encontrava-se a salvo. A medicina ainda hoje não avançou muito neste aspecto. Mesmo depois de já não acreditar-mos neste ou naquele médico, continuamos a acreditar na medicina e vamos procurar outro médico.

Com a corrupção passa-se algo semelhante. A ideia genérica de que os políticos são corruptos não se fundamenta na existência de casos concretos de corrupção. Há políticos corruptos e políticos honestos. Não é pelos políticos corruptos serem maioria que acreditamos que todo o político é corrupto. Assim como não deixamos de acreditar na medicina quanto nenhum médico parece fazer ideia do que tem alguém que chega com uma doença rara. Portanto, a crença que “os políticos são corruptos” não pode derivar da corrupção de facto, mas de outra coisa. É claro que se nenhum político fosse corrupto não poderíamos dizer que “os políticos são corruptos”. Mas considero que nas condições actuais, uma pequena minoria de políticos corruptos bastam para sustentar essa afirmação. Isto porque essa pequena minoria não dá origem a essa ideia, apenas a confirma.

Para encontrar a origem da ideia de corrupção generalizada temos que observar que o oposto de um político competente, não é o político incompetente, mas o político corrupto. Quer dizer que quando a política se coloca em termos de competência, o seu fracasso é atribuído à corrupção e não à má política. E, portanto, quando os problemas políticos se reduzem ao problema da competência, não é de estranhar que ante o fracasso de uma política, a grande maioria da população ache que todos os políticos são corruptos.

Mas para entender melhor este processo, vale a pena recorrer à distinção que Gramsci faz entre “grande política” e “pequena política”. Por grande política entendem-se as disputas na direcção do país. Rapidamente: refere-se às varias formas de enfrentar um problema (ver este também). A pequena política é o problema de qual o grupo mais competente para para pôr em marcha uma direcção previamente definida. Mas Gramsci recordava bem que é grande política fazer de toda a política pequena política. Quando o grupo dominante não quer colocar em discussão a direcção que imprime a um país, transforma a política num debate de quem é o mais competente. E quando esta direcção não serve à maioria do seus cidadão, o problema é a corrupção dos políticos. A corrupção tem ainda assim o ónus de manter fora do debate à direcção política.

Mas o indivíduo comum, como pode ele distinguir o político competente do político corrupto? Se estou certo na minha análise, essa distinção é impossível porque é falsa. Se o político corrupto é aquele que não consegue melhorar a condição de seus cidadãos, todos os políticos são corruptos quando as políticas beneficiam apenas uma minoria. Isto sem ser necessário que sejam corruptos de facto.

Eis porque não me espanta que nas últimas eleições uma grande maioria dos portugueses não tenha sabido como votar.

O mesmo é dizer que uma minoria de políticos honestos basta para passar a ideia de que os políticos são honestos. Só que isto implica outras condições sociais. Neste sentido, creio que não é a ditadura que faz com que na China e Cuba de hoje, mas também em França da década de 1950, a corrupção não se apresente como problema. Lá a grande política sobrepõe-se à pequena política e os casos de corrupção, quando denunciados, são tratados como devidamente devem ser tratados: como casos de polícia.

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1 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Ideologia | ,

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