Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Desemprego em Portugal

Há dois dias escrevi no facebook que deveria actualizar um post onde analisei as estatísticas relativas ao emprego e desemprego para o primeiro trimestre de 2010. Nem por acaso: hoje foram conhecidos os dados para o último trimestre de 2010. Um aspecto salta a vista. No início do ano o aumento do desemprego foi parcialmente compensado pelo aumento do emprego precário. Onde desapareceram dois empregos de contrato sem termo, apareceu um emprego com contrato a termo certo. Desapareceram empregos a tempo completo, mas aumentaram aqueles a tempo parcial, ainda que muito menos. A taxa de actividade dos homens reduziu, mas as das mulheres aumentou (sabe-se que, neste mundo machista, as mulheres, executando as mesmas funções, auferem salários abaixo dos homens).

Ou seja, se em meados do ano passado, as coisas eram graves, agora ainda são piores. Se o emprego a tempo completo caiu 1%, a tempo parcial caiu 4,8%. Se o número de homens empregados baixou 0,9%, o de mulheres baixou 2,1%. Deu-se, é certo, um pequeno aumento nos trabalhadores por conta de outrem, em particular os contratos sem termo. Mas este foi mais do que compensado pela redução de trabalhadores por conta própria. (Os dados encontram-se aqui).

As conclusões são duas. O desemprego já não pode ser mais justificado pelo custo do trabalho. Já não se nota que os empresários estão a reduzir os custos de trabalho. A velha discussão entre Pigou e Keynes parece definitivamente resolvida a favor do último: a resolução de uma crise económica jamais passa pelo abaixamento dos salários dos trabalhadores. Certamente o mar de rosas em que viviam as empresas de trabalho temporário se acabou.

Nota-se também que são os pequenos empresários os mais afectados pela crise. Isto é, se as exportações (facilitadas pela desvalorização do euro) permitiram gerar alguns empregos, elas estão longe de compensar a retracção da economia interna. Um economista bem pago dirá que os empregos gerados pelas exportações irão, a médio prazo, dinamizar a economia interna, os empregados das empresas de exportação serão os consumidores (motor) da economia interna. Mas, ele esquece que o aumento de emprego pode não significar aumento do poder de compra da massa trabalhadora (ver este também).

Post script: É curioso notar como olhar para a tabela do emprego (como eu fiz) dá a percepção da realidade que não é aquela que se tem quando se olha a tabela do desemprego (como fizeram vários jornais aqui, aqui e aqui). Sem dúvida, as duas se complementam.

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16 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

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