Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Farol apagado

Há lugares de onde não se espera o melhor. Mas assusta o pior do que são capazes. Um desses lugares é o novo think thank criado por Belmiro de Azevedo e Proença de Carvalho: o projecto farol. O estudo que apresentaram é de uma qualidade deplorável. Já se sabe há muito que as sondagens de opinião são instrumentos políticos e pouco têm de científico. Mas esta cumpre fins ideológicos tão claros que vale a pena desmontar os seus resultados.

É claro que estou aqui limitado na minha crítica, porque não tenho acesso ao questionário aplicado. Mas analisemos o seguinte dado: 46% dos portugueses considera que vivemos pior que antes do 25 de Abril e 55% (1974) dos inquiridos consideram que vivemos pior que antes de entrada na CEE (1985). Não tenho os dados da amostra, mas se ela retracta a população portuguesa, podemos admitir que os respondentes terão uma idade média de 40 anos. Quer dizer, que em 1974 eles tinham 4 anos e em 1985 eles tinham 15. Idades nas quais, como lembra o historiador italiano Alessandro Portelli, o pai parece tão poderoso como Deus, capaz resolver todos os problemas. Como não acreditar que há 30 anos atrás, no paraíso, se vivia melhor que hoje? Mas para entender o alcance de uma má pergunta considerem-se alternativas igualmente limitadas (a segunda e a terceira sensíveis à luta de gerações):

  • Acha que a qualidade de vida hoje é melhor ou pior que aquela antes da adesão a CEE em 1985?
  • [Para um jovem, como eu, de 30 anos] Acha que a sua qualidade de vida é melhor ou pior que a do seu pai?
  • [Para um adulto de 50 a 60 anos] Acha que a sua juventude foi melhor ou pior que a dos seus filhos?

Depois apresenta uma série de números sobre a opinião dos portugueses acerca da crise. Os resultados são expectáveis: o problema mais importante é o desemprego, crê-se muito pouco na sociedade política, etc. etc. etc. Quantas pessoas tinham pensado seriamente no assunto antes de serem inquiridos e limitaram-se a responder o que ouvem na comunicação social? A repetir exactamente o que aqueles que encomendaram o estudo queriam ouvir?

Mas vejamos esta frase retirada da notícia: “a esmagadora maioria (92%) concorda que um maior compromisso entre os trabalhadores e empresas é igualmente um factor decisivo [para o desenvolvimento do país]”. Como terá sido feita esta pergunta? Terá sido

  • Concorda que um maior compromisso entre os trabalhadores e empresas é um factor estratégico para o desenvolvimento do país?

Corajosos os que responderam não a uma pergunta tão vaga e tão cheia de implicações políticas…

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17 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | ,

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