Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Raspanete do FMI aos EUA

Não sei  de é pré-campanha eleitoral do seu director, mas o FMI tem tomado posições muito interessantes. As declarações que fez sobre a política europeia face à crise fizeram lembrar as do PCP (com eu já tinha assinalado num post anterior). Agora veio mandou um raspanete a Obama: Strauss-Khan recomendou a desvalorização do dólar como forma a fazer do país conseguir fazer face à crescente dívida do Estado (ver aqui também).

A quem interessa desvalorizar o dólar? Certamente aos Estados Unidos da América. Tudo parece um recado encomendado, embora legitimamente fundamentado num relatório técnico. A verdade é que Obama e o seu assessor Krugman vêm há muito a tentar fazer isso. Só que são impedidos pelo papel que o dólar cumpre no mundo. Eles imprimem notas a quilo para o valor delas baixar; mas são uma gota de água num oceano de reservas de capital que, em todo o mundo, se conservam em dólar.

Mais, os EUA são um dos principais consumidores de produtos chineses: se o dólar desvaloriza em relação ao yuan, as exportações chinesas para lá ficam mais caras, abrandam, abrandando o crescimento económico chinês. Mas é mais do que isto: mesmo para o Brasil que exporta sobretudo para a Ásia (alimentos) e América do Sul (bens industriais) serão prejudicados. Não se trata só que os EUA irão competir com o Brasil e com a China fortalecidos por uma desvalorização do dólar – o que também é verdade. É que os negócios internacionais são feitos em dólares e um champô vendido a 8 dólares à argentina fica mais barato: para o Brasil que o vende e para a Argentina que o compra. Ou seja, com a desvalorização do dólar as exportações, de modo geral e em todo o mundo, serão desvalorizadas. E lembremo-nos que as exportações geram emprego que dinamiza a economia interna, e tudo junto gera crescimento económico. O abaixamento do custo de importação não compensa de modo nenhum o abaixamento dos ganhos de exportação. Eis porque é aos países emergentes que menos interessa a desvalorização do dólar.

Mas, por outro lado, o FMI enviar um recado aos EUA, ainda que seja para todo o mundo ouvir, é uma novidade. Ainda que seja a pedido,este raspanete abre um precedente que põe em causa a hegemonia da maior economia do mundo.

Post script: Reparo que, para que este post fique claro, falta ainda uma informação. O dólar não tem desvalorizado (ainda que pouco) apenas pela emissão de moeda da administração americana. Outro fenómeno igualmente importante é a especulação. Com o congelamento dos mercados de crédito nos EUA, os “mercados internacionais” têm investido nos mercados de crédito dos países emergentes: vendendo dólares para comprar yuans chineses, reais brasileiros, pesos argentinos, etc. Lei da oferta e da procura: o aumento da procura de outras moedas face à procura do dólar, faz valorizar essas moedas face ao dólar.

Mas os governos destes países estão a intervir nos mercados com o objectivo de evitar a todo custo que a sua moeda valorize face ao dólar ou, em outras palavras, que o dólar desvalorize. O Brasil aumentou os impostos sobre os Investimentos sobre Operações Financeiras. Vários bancos centrais latino-americanos estão a comprar dólares para valorizá-los face à sua moeda. Discute-se a adopção de medidas de quarentena que “prendam” todo o investimento estrangeiro ao país onde é feito por pelo menos um ano. E, sobretudo, o câmbio do yuan não é livre; é decidido pelo governo chinês e permanece atrelado ao dólar, acompanhando qualquer desvalorização deste.

Eis os alvos do recado do FMI!

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24 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Europa, Mundo | , ,

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