Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Manifestações e esquerda

Há temas difíceis de abordar. As críticas de alguns militantes do PCP à manifestação da Geração à Rasca é um deles. Essa dificuldade advém de ser necessário reconhecer que ambos têm razão em algo, e perdem-na noutro. Quando se toma posição é fácil argumentar: os pré-conceitos resolvem facilmente a tarefa. (Já mostrei em outro post as minhas reservas com a palavra preconceito. Pré-conceito, ou mesmo preconceito como eu o entendo, é uma forma adquirida de ver o mundo. Não podemos viver sem eles – quando o meu filho nascer, vou à maternidade ou recorro à parteira? Sem pré-conceitos, todas as decisões eram extremamente difíceis ou mesmo impossíveis. Mas alguns são declarados non gratos, como o machismo, e os combatemos. Esquerda versus direita é um pré-conceito, que nos explica antecipadamente com quem podemos colaborar ou não. O que não impede que, por vezes, o PCP e o BE estejam de acordo com o CDS/PP).

Mas os pré-conceitos cavam fossos. Quando queremos aproximações, é necessário superá-los. Há-os insuperáveis, e o descobriremos aplicando o mesmo método (que é da família do método que tento usar neste blog, embora nem sempre me seja possível). Trata-se de não tomar previamente parte na dicotomia (todos os pré-conceito são, pelo que tenho lido, um nós versus eles), mas observar a sua história para encontrar nela os seus mecanismos de funcionamento. E com base nessa informação chegar a um terceira via ou, quando ela não existe, abster-se ou tomar parte de acordo com as convicções pessoais.

As divisões à esquerda são produto da divisão maior entre direita e esquerda e do sucesso da direita em veicular o pré-conceito de que a esquerda vive no passado: uma ideia do século XIX, testada no século XX e provada equivocada em 1989. Algures nesta edição do Plano inclinado o Eng. Henrique Neto afirma que o PCP e o BE vivem no século XIX para, felizmente, ser logo desmentido pelo mais bem informado (não se justifica somente por isto) Medina Carreira.

As disputas à esquerda alimentam-se deste preconceito. Creio que foi na campanha para as Presidenciais de 2005 que Francisco Louçã falava das diferenças entre a esquerda moderna e a esquerda enquistada. Serviu-se assim do preconceito da direita para disputar votos com o PCP. Ele reforçou um preconceito a direita que anos depois está a ser usado contra o seu próprio partido. Note-se que, para a direita, o BE só é moderno quando é oportunista.

Desta feita não é de espantar que estejam a surgir constantemente organizações que ocupem as reivindicações da esquerda. O suposto enquistamento das organizações existentes, retira-lhes a base que fica disponível para ser mobilizada por novas organizações. O grupo da Geração à Rasca como produto deste fenómeno. (O que deixa Portugal numa situação favorável à esquerda. Na Europa Central o suposto enquistamento da esquerda abre espaço para o crescimento da direita racista e neo-fascista).

Mas se ficarmos por aqui não completamos a análise. Doutro lado, do PCP, o  preconceito também existe. Como um espelho, os preconceitos de alimentam. Frente à oposição entre esquerda moderna e esquerda enquistada, o PCP tem arremete com uma oposição esquerda a esquerdalhada. Estes últimos são gente mal preparada, com pouca formação ideológica (a leitura de Marx e Lenine é muito cultivada entre os militantes), mais dados ao cada um por si que ao trabalho colectivo, mais dados a aparecer em público do que ao trabalho de formiga de organização. Pré-conceito que acantona os militantes do meu partido numa pureza teórico-ideológica, que valoriza as pequenas diferenças entre o “nós” e o “eles”.

Há fundamentos suficientes para justificar os pré-conceitos – os de um lado e os de outro. Não é isso que me ocupa aqui. Prefiro fazer uma crítica aos dois extremos da dicotomia, assumindo que o BE fica no meio e ouve dos dois lados. (Assiná-lo que não partilho desse pré-conceito de classe média de que “no meio está a virtude”. Se ele tem algum sentido é o de vangloriar uma classe social que se crê no lugar a virtude).

A defesa de uma pureza ideológica, exigida na clareza dos objectivos, é produto de uma série de erros de análise (existem excepções). Primeiro, é esquecer que os partidos e as organizações são, como ainda há dias ouvi a um dirigente do MST, instrumentos do povo. Segundo é achar que só as massas preparadas contam, princípio com que Kaustsy atrofiou o partido comunista alemão no início do séc. XX. É, como dizia um camarada que muito contribuiu para a minha formação ideológica, querer ir tão à frente que não vem ninguém atrás. Terceiro é não fazer nenhuma relação entre a política de alianças e a situação de conjuntura. Em o Que fazer? Lenine observa que o amadurecimento da luta exige romper com grupos que, sendo democráticos, não são revolucionários. Não será lógico assumir que com o atraso da luta seja necessário assumir alianças com grupos que, não sendo revolucionários, são democráticos?

Mas existe um aspecto que os militantes do PCP tem razão. Estes movimentos fazem tábua rasa de um trabalho feito que diferencia o PCP e o BE dos outros partidos. Estes partidos têm-se oposto à repartição desigual dos custos da crise, com as mais diversas propostas de lei. Basta dar como exemplo a proposta do PCP de tributação “antecipada” dos lucros antecipadamente distribuídos por várias empresas. E compará-la com a actuação descabida de Assis, presidente da bancada parlamentar do PS.

Esta crítica, da minha parte, não é uma questão de orgulho pessoal, derivada de querer ver reconhecido o trabalho do meu partido. Assim o fazem, legitimamente, alguns dirigentes do PCP. Para mim é mais do que isso. Quem não vê estas diferenças entre os políticos, sucumbe à pequena política com muita facilidade. Quem não quer dar-se ao trabalho de entender a política (porque dá trabalho), basta dizer que “eles [os políticos] são todos iguais”. Felizmente o grupo da Geração à Rasca demarcou-se de o “1 milhão contra a classe política“. Mas ainda falta muito a trilhar. Dizer que “todos somos responsáveis” nos deixa à beira do risco de não reparar que não somos igualmente responsáveis. Sem a mínima noção do que o governo deve fazer, como podemos assegurar que o governo estará ignorando as exigências feitas?

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25 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Portugal, Sociedade portuguesa | , ,

2 comentários

  1. Protesto da Geração À Rasca – CAUSA E SOLUÇÕES- UMA BOA PERGUNTA PARA OS MANIFESTANTES.
    Boa Tarde,
    Parece muito bonito dizer que se organiza uma manifestação sem lider, apolítica e cada um com um manifesto diferente.
    Mas a minha questão é muito simples e pragmática, o que adianta ir para a rua dizer, não quero mais isto, não quero mais aquilo, alguém, nessa manifestação vai falar da CAUSA do problema, alguém vai arranjar uma SOLUÇÃO CONCRETA, para se arranjar MILHÕES DE MILHÕES DE EUROS, para se pagar ordenados mais altos aos Milhões de Jovens Portugueses? Alguém vai dizer como arranjar esse dinheiro e criar esses empregos???
    Reparem, eu posso ir para a RUA dizer, quero Carro novo, quero dinheiro para criar 3 filhos e aumentar a natalidade, quero emprego com ordenado alto, por eu dizer isso, isso vai cair do CÉU? A sociedade para nos dar algo em troca tem que té-lo. Alguém tem alguma solução para isso? Para esse dinheiro e esses empregos aparecerem?
    Até parece aquelas crianças que dizem ao pai, EU QUERO ISTO, EU QUERO AQUILO e não sabem de onde vem o dinheiro.
    E isto é uma exigência do tipo, EU QUERO QUE DE REPENTE APAREÇA EMPREGOS, CONTRACTOS E DINHEIRO, JÁ.
    Ainda assim, tendo em conta que os políticos levam a sério a manifestação, que é apolítica, Qual é a solução para acabar com a precariedade? Não se esqueçam que as pessoas de direita que vão à manifestação (visto se apolítica) tem soluções opostas às pessoas de esquerda que lá vão estar. Vão todos juntos mas todos pensam de forma contrária.
    Já ouvi a seguinte solução de pessoas de direita: aumentar a precaridade nos mais velhos para a diminuir nos mais novos? As pessoas de esquerda vão aceitar que os seus pais fiquem em situação mais precária, para eles receberem dinheiro?
    A solução não é dizer: “acaba-se a precariedade” e toda a gente fica, de repente, rica e começa a chover euros para pagar a todos os jovens portugueses para trabalharem com contractos de grande estabilidade, quando não existe, nem emprego nem estabilidade para isso.
    Não percebo uma manifestação sem SOLUÇÕES, acabar com a penalização legal do aborto é uma coisa diferente, é só legislar, neste caso é preciso Dinheiro e de onde é que esse dinheiro vai aparecer?
    Eu acho super interessante as soluções:
    QUAL A CAUSA E A SOLUÇÃO?
    SE ALGUÉM SOUBER ATÉ PODE SER QUE GANHE UM PRÉMIO NOBEL E COM O PRÉMIO DEIXE PARA SEMPRE DE SER PRECÁRIO

    Comentar por Miguel P. | 3 de Março de 2011

    • Estimado Miguel
      Antes de mais obrigado pelo comentário. É sempre bom saber que se é lido.

      Em primeiro lugar, reservo-me ao direito de exigir soluções sem as propor. Os impostos dos portugueses pagam pessoas para fazer isso: deputados, ministros, quadro técnico dos gabinetes de planeamento do Estado, só para nomear alguns.

      É claro que sei que na manifestação de 12 de Março vão-se cruzam pessoas que defendem a alteração das políticas económicas de modo a gerar mais emprego com outras que desejam o fim da república e a restauração da monarquia. Não obstante, inspirado em Marx e Lenine, acredito que os fracassos das iniciativas organizadas pelos trabalhadores são positivas: eles perguntar-se-ão porque falhámos?

      Mas a fim de contribuir para este processo, estou a escrever um documento de cerca de 20 páginas que oferece um mapa dos interesses em torno da crise. Poderá encontrá-lo em breve na página de Estudos deste blog.

      Finalmente, informo-lhe que não surgirão proposta concretas nesse documento. Não é o objectivo. No entanto posso nomear algumas que tem sido avançadas pelo meu partido, o PCP:

      1. Redistribuir o esforço fiscal para fazer face à dívida pública, com o fim do off-shore da Madeira e a tributação da banca a 23% de IRC (como paga qualquer empresa em outro sector).
      2. Uma taxa especial provisória sobre a redistribuição dos lucros de grandes empresas. O objectivo é fomentar que elas invistam com mais capital próprio e menos recurso ao crédito, para que esse crédito fique disponível para empresas menores. (Sabia que a GALP distribuiu 80% dos lucros em 2009 e investiu a crédito um valor praticamente igual ao que distribuiu?)
      3. Que estas iniciativas de compras de bancos falidos sirvam para colocar o Estado no caminho de uma economia mista onde as empresas estatais possam investir tendo não só em vista o lucro, mas também o bem-estar social. Veja este post.

      Creio que este conjunto de medidas permitiriam dinamizar a economia e fazer com que os empresários tivessem condições de empregar melhor os seus trabalhadores. Sobretudo daria oportunidade para o surgimento de pequenos empresários, principais vítimas da crise neste momento.

      Em suma, como diz o PCP e o Director do FMI, curiosamente de acordo, e também o Nobel da Economia Stiglitz, a dívida pública não é tão grave como a falta de crescimento económico. A melhor maneira de sair da dívida é gastar mais hoje, mas bem, para poder pagar amanhã.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 3 de Março de 2011


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