Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A receita da direita

A Caixa Geral de Depósitos, o CEDES, e o DN juntaram-se para apresentar a receita para a crise. Obviamente, uma receita à medida de quem a define. Sabendo que é necessário superar a crise, para estes senhores,  tudo passa pela fatalidade de diminuir a qualidade de vida dos portugueses. Aqui tenho um problema semântico: entendo crise como a diminuição da qualidade de vida dos portugueses e, portanto, dizer isto é dizer a que solução para a crise é aceitá-la. Pois, não é solução nenhuma.

Dizem que Portugal enferma de uma economia dependendo do Estado, algo que já vem desde os descobrimentos que também foram financiados pelo Estado. É preciso, então, separar o Estado da economia. Quando oiço tremendo disparate, lembro-me sempre da felicidade que tive, por motivos profissionais, cair na palestra de um economista indiano, em Fevereiro de 2006. Ele dizia, referindo-se ao mundo todo, entre 1940 e 1970 as economias foram dirigidas pelos Estados; entre 1970 e 2000 foram dirigidas pelos mercados. Está mais que na hora de fazer comparações. E, para ajudar, vale a pena lembrar o que Hobsbawn escreve na sua Era dos extemos: durante os trinta anos gloriosos da economia francesa, 1940 a 1970, o Estado detinha 60% da economia nacional.

Acredito que só o preconceito pode sustentar a ideia que privatizar é a solução para a crise. É isso que o mundo está a fazer desde 1970 e, especialmente, a partir de meados da década de 1980. Mas, quando olhamos a economia mundial ela vem a abrandar no mesmo período, ao invés de acelerar. Sem dúvida o investimento privado aumentará, mas significará a compra em saldos dos investimentos já feitos pelo Estado. Tenho dúvidas que seja gerado emprego à custa destes investimentos e, portanto, permitam sair da crise. (Supondo que a saída da crise passa por investimentos que gerem emprego, que crie demanda interna, que induza mais investimentos… enfim, que façam emergir um circulo virtuoso de crescimento económico).

Resumindo: a aula sobre a crise, onde economistas marxistas ou keynesianos estiveram ausentes, apresenta receitas que vêm sendo testadas sem sucesso desde o golpe de Pinochet.

Mas existe outro aspecto menos óbvio. Creio que foi aqui que ouvi o Nuno Ramos Almeida afirmar que o PSD e o CDS/PP estão a deixar o PS governar a crise e pagar o ónus do desgaste. A minha leitura é que, se Sócrates já não satisfaz à elite económica portuguesa, Passos Coelho também não inspira muita confiança. Vejo que este evento serve também para enviar recados ao PSD. Há que preparar o partido de oposição antes de fazer cair o governo (desde que o BE não atrapalhe). Volto a repetir neste blog que não fui eu que disse que não se é governo sem apoio do BES.

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26 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Ideologia, Partidos, Portugal | , , ,

4 comentários

  1. O problema das análises deste tipo – que se multiplicam pela blogosfera de esquerda, keynesiana ou não – é não mencionarem que os 30 anos dourados do pós-guerra tiveram duas vantagens enormes: 1. a economia estava destruída e por isso era fácil investir sem risco a bom juro, e 2. os combustíveis eram muito mais baratos e não havia a Ásia a absorver tantos recursos como hoje, e com isso a inflacionar os custos de muitas matérias-primas.

    (Não quero com isto dizer que o capitalismo é defensável pois o ponto 1 demonstra um pouco da sua irracionalidade.)

    Comentar por nando | 27 de Fevereiro de 2011

    • De acordo! Mas ainda assim, sobra uma questão: porque é que em condições tão favoráveis, a economia que se desenvolveu foi mista e não puramente de mercado? Isto nos encaminha para fora da economia keynesiana (de que tenho abusado no meu blog) e nos aproxima da sociologia económica. É que, naquele momento, o risco era elevado; isto é, não havia empresas poderosas capazes de alinhar os outros (concorrentes, fornecedores, consumidores, etc.) em função das suas estratégias.
      Para se compreender isto compare-se dois sectores, um concorrência tipo quase puro e outro feito de relações verticais de poder: a hotelaria/restauração e a bioquímica (medicamentos e trangénicos). Os primeiros vivem com o risco de fecharem de ano para ano. Os segundos têm um poder tal que podem influenciar os outros (médicos, Estado, agricultores, etc.) de modo a garantirem sempre lucro.
      Enfim, regressando à questão que me prende ao blog, a economia deve ser mista ou totalmente privada? Depende… se queremos ter algum controlo democrático sobre estes centros de poder ou deixá-los agir à vontade.

      Abs. E obrigado por deixar o comentário! É sempre bom saber que se é lido.

      Comentar por Jose Ferreira | 27 de Fevereiro de 2011

  2. A economia que de desenvolveu foi mista e não de mercado livre precisamente porque a parte da economia que o Estado controlava, muitas vezes associada a prejuízos (saúde e educação, mas também transportes públicos e outras coisas que tal), era sustentada por impostos altos dos privados que, pensemos por exemplo no caso dos países nórdicos, pagavam exorbitâncias, mas não interessava porque a perspectiva era de prosperidade e, mais do que isso, institucionalmente implicava ainda muito proteccionismo. A partir do final de anos 60 e depois ainda com a primeira crise de petróleo, deixa de ser tão fácil realizar lucros e a tendência foi a de uns países liberalizarem mais cedo que outros, optando por privatizações onde o capital ia conseguindo bom rendimento; o que aliado à facilidade do trânsito de capitais, tornou uns países mais “apetecíveis” que outros, e pressionou os governos a tornarem os seus países apetecíveis de modo a captar o investimento. Com a ajuda do saque da classe política associada aos grupos económicos, favores de todo o tipo, crescimento desmesurado do aparelho estatal, muitas vezes com criação de inúmeros postos de trabalho sem utilidade nenhuma associados às câmaras municipais, torna-se uma utopia achar que podemos manter, ou que é mesmo desejável, este Estado.

    Onde eu quero chegar é que o capitalismo não pode ter um rosto saudável com traços de social-democracia (“economia mista”): é uma completa ilusão, já que não existem os mecanismos institucionais a nível da união europeia nem fora dela, de modo a controlar os offshores onde está acumulada a maioria da riqueza que produzimos. Essa riqueza é intocável e duvido que haja violência que a possa trazer de volta.

    Soluções para o nosso Estado não as tenho, sou socialista por convicção mas acho que padecemos de todos os males do socialismo real, excepto no que toca à liberdade de expressão, o que, ainda por cima, nos veio tirar a combatividade.

    Comentar por nando | 28 de Fevereiro de 2011

    • Olá
      Vários comentários

      1. O investimento Estatal dos 30 anos dourados não se deve aos elevados impostos pagos, mas ao facto dos governos darem-se ao luxo de imprimir notas quando precisavam de dinheiro. Ou a contraírem empréstimos a bancos (é difícil explicar, mas como mostrou Schumpeter, os bancos não precisam de ter senão uma parte do dinheiro que emprestam). Portanto a razão pela qual a reconstrução europeia partiu dos Estados é outra: política (tinha de ser reconstruida) e económica (era demasiado arriscado para os privados meterem-se nisso).

      2. A viragem nos anos 70 e 80 deve-se a dois factores. Imprimir dinheiro para pagar as obras dos Estado gera inflação. Com a inflação derivado do aumento do preço do petróleo a coisa tornou-se incontrolável. Mas a crise do petróleo teve ainda outro efeito: os países da OPEP fizeram muito dinheiro e colocaram-no em bancos europeus e norte-americanos. Os bancos puseram-no a mexer emprestando aos Estados a uma taxa de juro ridícula. Mas isto foi sol de pouca dura e, em pouco tempo, os bancos tiveram de aumentar as taxas de juro. Aí tens o problema da década de 1980 (a entrada do FMI em Portugal), Tatcher e Regan por todo o lado. O fim do investimento do Estado. Sem deixar de ter em conta o enorme poder que os bancos, dotados de uma ideologia neo-liberal, obtiveram neste processo.

      3. Quanto a socialismos, capitalistas, etc. costumo dizer: sou militante do PCP. Coloco o socialismo como miragem, mas sou muito pragmático nas propostas. Heranças do modo de ser da III Internacional. Daí que, com o meu partido, defenda no imediato o caminho para uma economia mista.

      Abs. Zé

      Post script: Quanto ao socialismo real, aprendamos com Evo Morales. Quando o confrontaram com isso, ele respondeu: isso é socialismo de branco; o que fazemos na Bolívia é socialismo indígena. Passei a imitá-lo a URSS é resultado de socialismo de outra geração, quando se acreditava mais na ciência e na técnica do que nas pessoas. Daí o estalinismo, o fascismo, o nazismo. Produto de um modo de pensar que nada tem a ver com uma orientação política, mas sobretudo com uma geração (a do meu avô, não a minha).

      Comentar por Jose Ferreira | 1 de Março de 2011


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