Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A massa… no Oriente Médio

Prometi a mim mesmo não falar da crise no Oriente Médio neste blog. E já vou na segunda excepção. Mas acabo de ler a analise de Hardt e Negri das revoltas e… eu que sou ateu, dou graças a deus por não ter tido paciência para ler o Império. A verdade é que já cheguei ao texto sobreavisado por um post crítico de Renato Teixeira no 5dias.net. De qualquer modo, virei-me para o assunto por outras questões, mais teóricas. É que os texto e a sua crítica levam-me para a análise daquilo que divide eternamente a esquerda. E posso chamar a essa divisão o conflito entre a meritocracia elitista e a democracia expontânea – ainda que, para que fique claro o meu argumento, é necessário acrescentar a ideia generalizada de democracia a definição que lhe deu Platão: o governo dos impreparados.

Face a cada problema – pensemos na crise económica que atravessa Portugal ou na crise política que atravessa o médio oriente – surgem organizações para mobilizar os pontos de vista de esquerda. E essas organizações, no seu quotidiano, debatem-se como um problema: confiar na direcção ou capacitar a massa. O marxismo ortodoxo, inspirados em Lenine, pôs a questão na direcção. O anarquismo e também Rosa de Luxemburgo preferiram confiar na massa.

Vou colocar o defeito principal das duas abordagens, e assumir que equivalem a virtudes do outro lado. Do lado da meritocracia elitista, na qual a direcção tende a afastar-se da sua base. Cada vez mais especialista, falando por conceitos reservados a especialistas (socialismo é entendido da mesma forma por um dirigente comunista ou por um cidadão comum?), se afasta da massa. O partido leninista levado ao estremo perde a sua ligação com as massas porque não fala a mesma linguagem que elas. Aquilo que para o dirigente partidário é óbvio e nem precisa de ser explicado (a necessidade de falar de classes), para a cidadão comum é absolutamente incompreensível. Aquilo que o segundo não compreende, o primeiro não vê a necessidade de pensar como ele deve ser explicado. Com uma divisão entre dirigente e base, reforçada por problemas de linguagem, não estaremos apenas manter a base excluída da política?

O problema da democracia expontânia é, antes de nada, a sua intermitência. A mobilização permanente de todos é um esforço demasiado grande. Somente quem vive da política pode dedicar-se todos os dias à política: os outros têm de ter outras profissões para se sustentar. Mas há mais. Quando se forma a massa, versa-se sobre o conhecimento adquirido. A aquisição de conhecimento novo é lenta e difícil. Por isso os anarquistas assumem que os processos são lentos e difíceis; se não o forem é porque se saltaram passos. Mas o problema é mais profundo. Supõe-se que o conhecimento não evolui, que o que se sabe hoje é o que se ensinará às massas em alguns anos. Mais grave, supõe-se que a elite económica contra quem a massa se bate não contrata especialistas para debaterem com a massa. Como disse um anarquista famoso, Chomsky, uma das vantagens das elites é conhecer a sua população melhor que ela se conhece a si mesma. Como entrar nesta disputa sem a preparação de uma elite?

Dir-se-á que a virtude está no meio. Mas, para mim, isso não passa de uma expressão da ideologia da classe média. Somente quem se encontre a meio da escala social, e deseje vangloriar-se disso, pode ver ali o lugar da virtude.

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28 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Ideologia | , , ,

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