Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Capitalismo autofágico

Julgo estar a haver um alinhamento de alguns empresários portugueses para por em marcha um plano de privatização do que resta de participação do Estado na economia nacional. Não obstante, se quisermos avaliar desde já as implicações desse plano, devemos olhar para uma empresa recém privatizada: a GALP. Parto da análise que o economista Eugénio Rosa fez do último relatório de contas da empresa.

A GALP obteve mais de 600  milhões de euros de lucro nos anos de 2009 e 2010. Mas 56,9% desse lucro, mais de metade, deveu-se a efeitos de stock. O efeito de stock é basicamente o ganho obtido por vender a gasolina a um preço que considera o custo do crude naquele momento, e não o custo do crude que lhe deu origem (obviamente comprado meses antes). Ou seja, é um ganho puramente especulativo. Neste sentido, compare-se com a sua congénere brasileira, a Petrobras, que no momento em que desde 2008 que não altera os preços dos combustíveis.

É preciso não considerar os efeitos dos custos dos combustíveis no resto da economia para não entender a importância disto. Os combustíveis (como a taxa de juros e o preço dos alimentos) afectam toda a economia e, quando sobem, levam à falência de pequenas empresas. Geram inflação e desemprego. Enfim, parece-me legítimo dizer que um parte importante dos pequenos empresários que faliram (o desemprego aumentou, sobretudo, com a redução do número de trabalhadores por conta própria), faliram porque a GALP quis garantir 317 milhões de lucros apenas especulando.

Sejam quais forem os preconceitos acerca das empresas Estatais, uma coisa é óbvia: uma empresa privada pensa de forma duplamente reduzida. Primeiro, o seu objectivo é sustentar-se a si mesma, desprezando os efeitos que as suas acções terão sobre o ambiente económico. Pode dar-se o exemplo, também, da CIMPOR que, ao privatizar-se, adoptou uma política de eficiência: reduzir o pessoal ao mínimo indispensável e contratar empresas prestadoras de serviço que forneciam mão-de-obra em momentos de maior produção. Os trabalhadores eventuais, com um salário inconstante e inferior aos trabalhadores do quadro, são gente que deve pensar duas vezes antes de comprar uma casa. Quando todas as empresas, em todos os sectores, fazem o mesmo é óbvio que as suas vendas e os seus lucros decrescem.

Segundo, e como se depreende do anterior, é um pensamento de curto prazo. Os lucros deste ano da GALP são obtidos à custa de um efeito na economia que, creio, tenderá a reduzir-lhe as vendas nos próximos anos.

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28 de Fevereiro de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

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