Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A subida dos juros

O recente anuncio do presidente do Banco Central Europeu no início deste mês, advertindo para a possibilidade de um aumento da taxa de juro, tem um claro fundo ideológico. Gosto de ser preciso com algumas palavras, portanto, ideológico aqui significa um raciocínio lógico, inteiramente lógico, mas conveniente a certos interesses a despeito de outros. Embora, diga-se de passagem, que o anuncio não me surpreendeu. Elevar a taxa de juros é a medida corrente para fazer face à inflação, sobre a qual Bruxelas já tinha manifestado a sua preocupação.

Mas porque razão o discurso de Jean-Claude Trichet é ideológico? Porque essa preocupação com a inflação só é valida quando se assume que a retoma económica se faz pela via da exportação, e não pela dinamização da economia interna. Porque quem exporta, assim como quem produz para o mercado interno, com a inflação vê os seus custos de produção aumentarem. Mas se a solução é aumentar a taxa de juro, o consumo interno – neste caso, para toda a Europa – vai reduzir-se também. Então, o aumento da taxa de juro beneficia quem exporta ao controlar a inflação (e os custos de produção). Para quem produz para o consumo interno, o beneficio que obtém pelo controlo dos custos é inferior ao que perde pela redução das vendas. Isto para não falar de quem trabalha e consome, que só terá o prejuízo de consumir menos.

Obviamente, uma política monetária orientada para a exportação não é igualmente conveniente a todos os países do euro. Portugal que “exporta” para Espanha, quer dizer, não exporta na prática, prefere uma política monetária orientada para o estímulo do consumo interno. Já a empresa Jerónimo Martins, que exporta para a Europa de Leste, concorda com a opção de Trichet. Eis a razão da picardia ente Sócrates e Soares dos Santos.

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6 de Março de 2011 - Posted by | Economia, Ideologia, Portugal | , ,

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