Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

PCP: Homens da Luta

Há cerca de 10 anos, quando o PCP atravessou uma crise interna, alguém disse que o problema do PCP era o abuso da palavra luta – as pessoas não gostam dessa agressividade de linguagem do PCP. (Foi um desses militantes, que entrou no debate revisionismo vs ortodoxia como revisionista e terminou ortodoxo. É bom divulgar que a crise interna foi resolvida não tanto por uma direcção empenhada pela ortodoxia, mas por uma grande maioria de desconhecidos que mudou de opinião entre 1999 e 2004).

Mas, de facto, esse camarada estava correcto. O PCP usa uma linguagem que não é a da maioria da população portuguesa, como Ruben de Carvalho reconhece. A sua mensagem não passa, ou passa pouco porque não encontra eco na “cultura” das massas. Bem diferente foi a música dos Deolinda; ela é construída por uma linguagem mais próxima dos jovens e daí o seu impacto.

Não obstante, o PCP tem razões para insistir nessa linguagem “ultrapassada”. Opor proletário a burguês não é o mesmo que opor pobre a rico. É dizer que um não pode existir sem o outro. É óbvio que, se não houvesse pobres os ricos não se poderiam sentir ricos. Mas quando se fala de proletários e burgueses a coisa é completamente distinta. A economia de hoje é pensada em função do lucro; e lucro é ganhos menos custos: L = G – C, assim, pura matemática. Mas é preciso lembrar que os únicos custos realmente existentes são os salários e as rendas (os inputs/consumos intermédios e as máquinas custam o salário de quem as produziu mais o lucro de quem mandou produzir) para entender a contradição entre lucro e salário. Quando os ganhos não crescem, mas decrescem, como acontece nas crises, os lucros só se podem manter reduzindo os salários.

Falar de ricos e pobres em vez de falar de proletários e burgueses é deixar de ver a contradição esta contradição fundante da sociedade moderna. É deixar de ver, por exemplo, que a oposição da maioria dos empresários à existência de pensões de reforma, saúde e educações públicas se deve ao facto de que os impostos que eles pagam são uma espécie de salário que, através do Estado, chega à massa trabalhadora. O desemprego é um processo mais complexo; mas certos estudos tem mostrado que, para manter o lucro, a economia passa por períodos de criação de emprego e períodos de aumento do desemprego (ver uma explicação aqui).

Daí que, os Homens da Luta, ao ganhar o Festival da Canção, quer queiram quer não, quer saibam quer não, estão a prestar um serviço enorme ao proletariado português e, em particular, ao PCP. Ao recuperar essa linguagem, ainda que na forma de comédia, eles criam as condições para que os portugueses leiam a realidade pela lente de novas categorias de pensamento – aquelas que Marx criou e que o PCP insiste em reproduzir.

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8 de Março de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | , ,

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