Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Da crise ao TGV

No Prós-e-contras de 28 de Fevereiro, Isabel Stilwell, entre outros disparates, afirmou que o protesto de 12 de Março era uma perda de tempo. Para quê exigir melhores empregos se ninguém diz de onde eles vêm? O Estado poderá criar empregos na função pública, mas esses terão de ser sustentados pelos empregos do sector privado, afirmou o professor Ferreira Machado.

Ontem surgiram alguns artigos de conceituados economias que repetem o que já estou farto de falar aqui no blog. J. Badford DeLong, assumindo-se neoliberal, veio criticar o neoliberalismo. Quando as pessoas não têm dinheiro para consumir e as empresas também não, “o Estado terá de gastar… para manter o emprego nos seus níveis normais” e tirar o país da crise económica. Com que dinheiro? Quantas vezes será preciso repetir que, em última análise, o governo pode imprimir notas? Assim, só a inflação pode anular a acção do governo, mas no caso da Europa e dos Estados Unidos “não é essa a situação actual”.

Paul Krugman, falando apenas dos Estados Unidos da América, veio reforçar essa ideia. A crise chegou ao ponto onde chegou porque estas medidas de aumento da despesa do Estado já deviam ter sido tomadas em Setembro de 2008. Há medida que a crise se agrava, obrigando os governos a intervir para cobrir as quebras, fica mais difícil de resolver.  Mais, ele deita por terra a política de austeridade imposta pela Alemanha à UE

(…) temos muitas evidências de outros países sobre as perspectivas de “austeridade expansionista” – e essas evidências são negativas. Em outubro, um estudo abrangente do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que “a ideia de que a austeridade fiscal estimula a atividade econômica no curto prazo tem pouca sustentação nos dados”.

E vocês se lembram dos pródigos elogios colhidos pelo governo conservador da Grã-Bretanha que anunciou medidas severas de austeridade após assumir o governo em maio? No que deu isso? Bem, a confiança das empresas não aumentou, de fato, quando o plano foi anunciado; ela despencou, e até agora não se refez.

Nenhum dos dois o afirma, mas tudo me leva a uma pergunta. Se o governo não tomar medidas hoje, não será de esperar outra quebra no sector financeiro – mais bancos a falir – e a necessidade de os governos gastarem mais dinheiro a cobrir essas dívidas?

Posto isto! Onde deve investir o governo? Portugal enfrenta duas questões. A primeira é a ausência de autonomia em termos de política monetária. Qualquer que seja a solução, ela tem de ser Europeia. Não podendo imprimir moeda como estão a fazer os Estados Unidos da América, e a dívida pública estando já a pagar uma taxa de juro de em mais de 7%, o governo está de mão atadas. É por esta razão que a Alemanha tem responsabilidades na crise portuguesa. Ela se coloca como dona de um dos mais poderosos instrumentos de resolução de crises: a política monetária da UE. Então use-o em benefício da UE e não somente em benefício próprio.

Segunda, se o Estado tem de gerar emprego, onde pode fazê-lo? Não está colocada nenhuma opção no debate político para além do TGV e do aeroporto de Lisboa. Com já disse aqui, eles se colocam porque se apoiam em interesses poderosos, mas isso não faz desses investimentos um problema. É bom que o investimento, seja ele qual for, interesse a alguém; porque interessar a todos é impossível e não interessar a ninguém é indesejável. Enfim, não sei o suficiente de economia para dizer que investimentos se devem fazer. Devem ser investimentos estratégicos não hoje, mas daqui a 10 anos… que se paguem rapidamente, mas só a partir de 2020. Daqui a 10 anos a economia portuguesa será semelhante à de hoje, onde mais de um terço das exportações são destinadas a Espanha? Se este número se mantiver, parece-me racional o TGV. Mas isto é um debate para especialistas.

Não quero o TGV; exijo é que os especialistas debatam onde se deve investir. Até agora não têm feito mais que deleitar-se a ver o sofrimento do paciente!

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9 de Março de 2011 - Posted by | Economia, Europa, Portugal | , , ,

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