Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

E agora minhas Gerações?

Vou aproveitar este post para reafirmar o que concluí aqui e repeti aqui. Depois de convocar 30 mil pessoas para a rua, o movimento Geração à Rasca vê-se no impasse de garantir a sua continuidade. O que se segue é uma proposta de curto e médio prazo, baseadas numa análise de conjuntura que já publiquei neste blog.

A curto prazo, o movimento deve iniciar uma campanha pela qualificação dos serviços públicos.

A médio prazo, o movimento deve empenhar-se num trabalho de construção de uma sociedade civil empenhada num debate político qualificado.

————— FUNDAMENTAÇÃO —————

A minha proposta fundamenta-se numa análise de 27 páginas da política global (G20), Europeia (17) e portuguesa. Essa análise pode ser encontrada aqui. De qualquer modo fica aqui um resumo actualizado.

1. Desde há um ano, EUA e Europa se dividiram quanto às soluções para a crise. Obama propôs que os Estados ainda se endividassem mais para estimular a economia. Uma vez relançada a economia e estimulado o consumo interno, esta dinâmica ajudaria a pagar a dívida dos Estados. Merkel e Barroso, por sua vez, propuseram que os Estados pagassem as suas dívidas para libertar crédito para o sector privado, ao mesmo tempo que fomentavam a exportações.

2. Com a derrota dos EUA no G20, a política norte-americana só começou a ser aplicada, unilateralmente, em Novembro passado. Contudo, no mês seguinte mostrou resultados. Bem ao contrário da política europeia. O crescimento económico mundial do primeiro trimestre de 2011 deve-se à opção de Obama.

3. Isto levou a uma mudança de opinião de Merkel, que em Dezembro passado começou a negociar com Sarkozy uma nova estratégia. Não obstante, a política interna alemã boicotou a mudança. A coligação de governo na “Assembleia da República” alemã fez aprovar uma moção que impediu Merkel de assumir tais compromissos na Cimeira da Europa deste fim de semana.

4. De qualquer modo, os economistas parecem estar a mudar de opinião. Os discursos dos keynesianos Stiglitz e Krugman começam a ter eco em outros que se auto-intitulam de neoliberais. Este é, por exemplo, o caso do professor de Havard J. Bradford DeLong, que publicou um texto (reproduzido no Público) onde se afirma estupefacto por na reunião dos 10 maiores bancos do mundo se haver decidido “cada um por si”. E, mais, recomenda-lhe soluções puramente keynesianas, isto é, a la Obama.

5. Portugal não tolera um novo agravamento de impostos. Não há como. Mas a continuação da política de austeridade europeia, equivocada como se depreende do ponto 2, é inevitável sem o apoio da Alemanha. Ela implica decisões em termos do política monetária que Portugal não pode tomar sozinho. Estão só resta ao governo português continuar a política de austeridade à custa do corte nas prestações sociais: pensões de reforma, serviço nacional de saúde, sistema nacional de educação e nos mais diversos subsídios (de desemprego, abono de família, rendimento social de inserção, etc.).

Posto esta análise de conjuntura, é possível explicar já porque defendo que a curto prazo seja necessário defender os serviços públicos e as prestações sociais de modo geral. Só a oposição, nas ruas, por parte dos cidadão europeus e portugueses, poderá impedir que por politiquice partidária continue a ser posta em prática uma política comprovadamente equivocada (ver acima pontos 2 e 3).

A resistência à política de austeridade (neoliberal) enquanto a solução keynesiana não convence economistas e políticos, é fundamental para que, no momento em que se dê essa mudança, não haja tantos erros de que recuperar.

Para entender a minha segunda proposta é necessário colocar outro ponto da conjuntura:

6. O sucesso dos movimentos de cidadãos em Portugal deixou-os no impasse. Em primeiro lugar, devido à sua complexidade interna por onde passam partidos políticos, associações locais (desde recreativas às de estudantes), grupos de amigos, etc. Mais, fruto desta diversidade, ele produz uma heterogeneidade polícia que vai da extrema-esquerda à extrema-direita. E, do ponto de vista organizacional, ele está entre duas opções: apoiar-se numa mobilização continua das pessoas, com quase uma manifestação por mês, o que é visivelmente impossível; ou apoiar-se numa burocracia interna, elegendo seus coordenadores nacionais, regionais e locais.

Creio que, se a primeira solução é impraticável, a segunda é indesejável. Daí que proponho uma solução intermédia: a sua pulverização. Isto é, reconhecendo a heterogeneidade da sua composição, e valorizando-a, proponho que localmente cada grupo que lhe deu origem, formal ou informal, partido político ou associação cultural, associação de estudantes ou grupo de amigos, etc. assuma a sua continuidade a nível local. O que cada grupo estaria encarregado de fazer era

  • Tertúlias de debate da crise
  • Curso de vulgarização científica, nomeadamente em temas económicos como dinâmica económica, contas públicas, história da crise de 1929, etc.
  • Actos pela qualificação dos serviços públicos como sugerido acima.

Creio que este tipo de evento daria a origem a uma sociedade civil disponível para entrar no contraditório político. Como estes membros da sociedade civil não vão a votos eles não sentiram necessidade de trocar as suas convicções baseadas em dados, pelos discursos pré-formatados pelo marketing político.

A médio prazo, a existência destes debates qualificados mostrariam o ridículo do debate político orientado pelo marketing. Como o ridículo não dá votos, os políticos seriam obrigados a abandonar o marketing político e a retomar as discussões sérias que devem caracterizar a política.

Disse!

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13 de Março de 2011 - Posted by | Sociedade portuguesa | ,

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