Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O factor subjectivo

280 mil pessoas, contam os organizadores da manifestação da Geração à Rasca em Lisboa e no Porto. Números certamente inflacionados, cuja inflação é mais que compensada pela existência de outras manifestações em outras cidades.

Mas existe uma discussão que me parece mal orientada. Qual foi o papel do facebook em tudo isto? O jornal Público falar na manifestação low cost convocada via Internet. O jornal Avante traz uma crónica de anti-facebook assinada por Manuel Gouveia. Será por (d)efeito de uma (de)formação de um mestrado em ciências sociais? Talvez! Mas parece-me que as duas posições erram ao reduzir a discussão a um dos aspectos necessários para organizar uma manifestação. Vou explicar porquê…

Mas não sem antes notar que a Internet não se traduz numa democratização da informação, como mostra este estudo da HP.

Em linguagem marxista (até porque a linguagem alternativa, a da sociologia dos movimentos sociais anglo-saxónicos só trocou o  nome aos bois, mas manteve os bois), para entender um evento deste tipo é preciso ter em conta dois factores principais. 1) O factos objectivo, isto é, as condições de aumento do desemprego; de desvalorização dos títulos académicos; de aumento da desigualdade social e de aumento dos impostos/redução das prestações sociais. 2) O factor subjectivo que é o que me interessa neste post. O factor subjectivo diz respeito a três dimensões analíticas complementares:

A. O discurso ideológico* propriamente dito.  Aqui trata-se do discurso oficial da manifestação que, no caso da manifestação de hoje, foi apresentado por um grupo de música: os Deolinda. A este discurso se adicionaram os de  Jel, cara visível do grupo Homens da Luta. Por outro lado, surgiu o discurso de movimentos de direita que mobilizaram com outro discurso: o da corrupção dos políticos. Os dois discursos, contra a precariedade e contra os políticos, fundiram-se no que já chamei uma confluência perversa.

*Ideologia: diagnóstico, não necessariamente consistente, da realidade carregado de interesses que lhe estão subjacentes. Na realidade, todo o diagnóstico é uma hierarquia de problemas cuja ordenação nunca é desinteressada. O que torna um diagnóstico ideológico não é o facto de ele manifestar interesses; desse ponto de vista todos os diagnósticos são ideológicos. O que varia é o ponto de vista do pesquisador. Ele pode estar interessado na dimensão gnoseológica (a  verdade) do discurso ou na dimensão ideológica. Para entender o protesto de 12 de Março, e a evolução que dele pode decorrer, interessa a dimensão ideológica.

B. As redes de organização. Trata-se aqui das relações que se estabelecem entre pessoas para organizar toda a mani- festação. Fiz aqui um sumário do envolvimento perceptível dos partidos políticos na organização da manifestação. Mas é um erro esgotar a magnitude desta manifestação numa confluência de partidos políticos da esquerda à direita. O envolvimento de associações de diversos tipos, como se viu no caso da Associação Académica de Coimbra, foi essencial para o sucesso da manifestação.

Aliás, vale a pena referir que, segundo a pesquisa histórica de Sidney Tarrow, poderemos notar o seguinte. As grandes manifestações são espontâneas ou, pelo menos, vão muito além do alcance das redes organizacionais nela empenhadas. Por outras palavras, existe uma boa parcela de participantes fora e para além da base organizacional do movimento. Mas também mostra que essa estrutura permanente é o que sustém o movimento entre acções visíveis. Sem a força das cores da euforia, a sobrevivência dos movimentos sociais só pode ser garantida pelo “cinzentismo” burocrático.

C. A difusão do discurso ideológico. É neste aspecto que o facebook parece ter dado uma contribuição fundamental, ao permitir as pessoas conhecerem e comentar os argumentos dos promotores da manifestação. Mas não se deve desligar este facto da cobertura que a comunicação social deu ao evento. Durante várias semanas, a manifestação da Geração à Rasca foi motivo de discussão nos mais diversos jornais. A meu ver importa menos discutir se foi o facebook ou a cobertura televisiva que garantiu a difusão da mensagem. Mais importante é entender porque ela se difundiu. Vejo dois caminhos a serem analisados

  • O facto da manifestação, convocada por fora do PCP e CGTP, constituir uma novidade na política portuguesa.
  • E, porque não foi convocada por aquelas, a convocatória esteve livre dos preconceitos que pesam sobre os políticos (sobre os quais já reflecti aqui).

Enfim, o artigo do jornal Público ignora os dois primeiros factores do componente subjectivo, substituindo-os apenas pelo terceiro. E mesmo aí falha ao confundir a “aparência” da novidade do facebook com a “essencia” dos seus efeitos. Ao aparecer como algo completamente novo, uma manifestação convocada pelo facebook, o movimento Geração à Rasca garantiu que os “velhos” instrumentos de difusão de ideias, a televisão e os jornais, difundissem a sua mensagem.

O artigo do jornal Avante crítica análises como aquela do jornalista do Público e outras semelhantes (como, por exemplo, a de Hardt e Negri a propósito do protestos no norte de África). Mas fá-lo ao reduzir o factor subjectivo aos outros dois elementos – a construção ideológica do discurso e a organização – , ignorando por completo os mecanismos de difusão do discurso nas massas.

Espero que os dirigentes do movimento Geração à Rasca não percam de viste nenhum dos elementos do trabalho de organização. Porque se o fizerem só por sorte poderão manter este nível de luta e impedir que isto seja mais que um acontecimento sem qualquer consequência.

Post script: Nada como escrever o que se pensa para descobrir onde está errado. Quatro horas depois de publicar o o texto acima, vi que tratei as posições dos jornais citados apenas no plano gnoseológico e não ideológico. Quando mudei a perspectiva, vieram-me à cabeça algumas perguntas. A quem interessa subordinar as duas primeiras dimensões à terceira?  Não serão aqueles que querem escamotear o debate ideológico (no sentido definido acima), isto é, apagar os conflitos de interesse que caracterizam a sociedade? Mas, obviamente, também se coloca a  questão: quem põem em causa a importância da terceira dimensão do movimento social? Não serão aqueles a quem lhes falta competência em lidar com ela?

Anúncios

13 de Março de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: