Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Divergência rasca

A manifestação de hoje da CGTP, assim como há pouco mais de uma semana a confirmação da presença dos deputados de PCP na de 12 de Março, gerou um polémico debate no Fórum das Gerações. Difícil é argumentar algo sério no espaço limitado de comentários que o facebook proporciona. Mais difícil quando se embatem pré-conceitos entranhados na cabeça das pessoas. Volto-me portanto para o meu blog para ter espaço para dizer o que já disse (atualizando-o) inúmeras vezes.

A manifestação de 12 de Março não deveu o seu sucesso somente ao mal estar dos portugueses. Houve a participação de diversos tipos de organizações, desde partidos a associações de cultura local. Houve uma novidade, o papel do facebook, que levou a que a comunicação social tratasse de outra esta manifestação. (Quem duvide, compare a cobertura que qualquer jornal português deu à preparação da manifestação de 12 de março e agora a esta de 19). Mais, este elemento de novidade atraiu pessoas que habitualmente não querem saber de política.

Mas um fator igualmente importante foi, sem dúvida a presença de pessoas oriundas de vários quadrantes ideológicos. (Não entendo ideologia como o discurso acabado de um partido político. Ideologia é uma definição interesseira de algo, tal como aquela definição de ideologia encerrada nos partidos conveniente aos “apartidários”. Ou, ao contrário, esta definição de ideologia que se estende para fora dos partidos do interesse de quem, como eu, tem partido. Na realidade nenhum discurso, melhor ou pior articulado, deixa de ter uma dimensão ideológica. Cabe a quem o ouve escolher entre a valorização da dimensão gnoseológica – o seu fundo de verdade – e a sua dimensão ideológica – a sua adequação desigual aos interesses das pessoas que vivem na sociedade a que esse discurso se aplica).

Assim, outra coisa não seria de esperar que observarmos uma confluência perversa. A melhor maneira de entender esse tipo de confluências é mapear as distintas posições em termo de projetos. Aceitando que todas as pessoas têm opiniões diversas umas das outras, é sempre possível agrupar essa diversidade me discursos que partilham elementos distintos – em projetos políticos (no sentido gramsciano). Repare-se que por projeto não estou a entender um plano acabado, conscientemente formulado. Pelo contrário, trata-se de um amalgama de discursos que partilham elementos comuns em termos de diagnóstico de problemas e ideias de solução.

A experiência também mostra que as opiniões se tendem a polarizar quando a discussão fica acirrada, reduzindo o debate apenas a dois projetos. (Com a vantagem de simplificar o método de análise). É claro que isto produz um método com vantagens e desvantagens. A vantagem é assemelhar-se ao senso comum que faz o mesmo sem dar conta, e ao mesmo tempo, porque dá conta desta operação, pode controlar os seus efeitos. Mas se este controlo não é feito, se eu divido o mundo em dois projetos sem compreender que se trata de uma simplificação do mundo, corro o risco de reforçar preconceitos… como se dividisse o mundo em “pretos e brancos”. Uma longa e interessante discussão sobre estes problemas pode ser lida nos comentários a este post.

Assim, como já disse aqui (ponto 5.3), a Geração à Rasca se divide em dois projetos: o projeto moralista e o projeto keynesiano radical. O primeiro vê a política portuguesa como um problema de incompetência dos políticos. A culpa da crise é atribuída à corrupção. O segundo, pelo contrário, atribui a crise a políticas económicas equivocadas. O primeiro divide o mundo entre políticos e cidadãos. O segundo entre esquerda e direita. A presença da CGTP e do PCP na construção do projeto keynesiano radical faz com que o preconceito anti-comunista cave ainda mais o fosso entre as duas visões do mundo.

O projeto moralista põe em relevo a problemas de corrupção. Chega a exigir a demissão de todos os políticos. Por outro lado, o projeto keynesiano radical exige um Estado forte, capaz de solucionar os problemas da economia. Os projetos chocam-se. Isto porque o primeiro vê nos políticos o problema; os outros vêm neles a solução. Os últimos exigem o crescimento do Estado; os primeiros exigem a sua redução.

Existem diversas questões que me levam a optar pelo keynesianismo radical. A começar porque a solução está longe de passar pela redução do Estado, como têm dito vários economistas (ver aqui também). Mas existe um problema bem mais grave. Ao analisar a política portuguesa a partir de uma oposição entre políticos e não políticos, membros de partidos políticos e independentes, os portadores de um discurso tornam-se incapazes de ver o que diferencia os políticos. Tornam-se, portanto, incapazes de conhecer o que está em jogo na política como, por exemplo, o debate entre Merkel e Sarkozy acerca da criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Tornam-se incapazes de adquirir um conhecimento mínimo sobre os problemas macroeconómicos que atravessa Portugal e os debates em torno das suas soluções. Enfim, tornam-se incapazes de entender uma política que, no fim de contas, determina o preço dos seus sapatos.

Por outro lado, a oposição entre políticos e não políticos, tenho vindo a defendê-lo, é produto imediato do fosso que se cava entre estes aqueles que sabem e se ocupam de política e aqueles que não sabem e se abstêm. Este fosso agravou-se depois da introdução do marketing na política. Não estou a deitar culpas ao marketing, nem aos “analfabetos políticos”. O processo é outro. Sendo que a força de um partido é proporcional aos votos que obtém, ele busca obter votos em todos os quadrantes ideológicos. Como não se pode agradar a gregos e a troianos, os partidos deixaram de debater os assuntos de natureza política (aqueles que por não interessarem a todos da mesma maneira, devem ser politicamente negociados).

O marketing é chamado a buscar algo para ocupar o espaço de onde desapareceu a política. Não podendo debater política, para poder obter votos em todos os quadrantes, os partidos são levados a debater quem tem o melhor líder, o mais competente e o menos corrupto. Esta tendência é a causa de que, a meu ver, a corrupção esteja sobrevalo-rizada na política portuguesa. Também é natural que, estando o debate reduzido às caraterísticas pessoais dos políticos, que os cidadãos comuns não tenho capacidade de avaliar as diferenças entre partidos.

O discurso moralista impede aqueles que o portam de ver que é a sociedade civil que tem de mudar para preencher este fosso que se estabelece entre políticos em não políticos. Construindo uma sociedade civil capaz de discutir temas propriamente políticos sem necessidade de ir a votos, sem necessidade de recorrer ao marketing, seria possível manter o discurso no campo político, discutir politicamente a sério e mostrar ao resto da população o discurso vazio do marketing. Somente nestas condições os partidos abandonariam o marketing

Eis porque não paro de defender que os movimentos que organizaram a a manifestação de 12 de Março deveriam estar a realizar tertúlias e pequenos cursos de macroeconomia por todo o país. Isto é mais urgente que debater se este ou aquele tem o direito de fazer ou não uma manifestação.

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20 de Março de 2011 - Posted by | Sociedade portuguesa | , , ,

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