Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Combater a corrupção

Neste blog tenho duvidado bastante da pertinência do combate à corrupção. A razão é simples: os escândalos de corrupção estão a ser usados como um véu que tapa as razões da crise. Atribuindo culpas à corrupção, torna-se desnecessário entender os processos económicos que estão na base das crises financeiras – e, neste caso, ajustam-se tão bem aos acontecimentos que me é permitido afirmar que são eles, e não a corrupção, que estão na origem da crise. O combate à corrupção não só deixa de fora os verdadeiros problemas económico (em nome do combate a problemas moralmente intoleráveis mas economicamente menos relevantes), como abre o caminho para medidas que agravarão a crise económica – medidas de ajuste estrutural.

Mas não querendo deixar de lado a importância destes problemas, volto a reenviar para Portugal melhor exemplo do Brasil. Marcelo Freixo parece-me mais acertado que Cidinha Campos no combate à corrupção, como já referi num post anterior. Em vez das denuncias públicas da segunda, Freixo opta por investigações de vários meses. Em vez da retirar um mandato ou outro a um político corrupto, como faz Cidinha, Freixo põe a polícia para investigar esses políticos. Não só os deputados perdem o seu mandato, como vão parar à prisão juntamente com toda a sua quadrilha.

Aliás, o reconhecimento do seu trabalho é tanto que Freixo foi o segundo deputado mais votado no Rio de Janeiro, apesar de representar um pequeno partido de esquerda: o PSOL.

Freixo, depois do sucesso da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das milícias, prepara-se agora para lançar a CPI das armas. Se as armas não nascem nas favelas (como gostam de afirmar os movimentos da sociedade civil que apoiam Freixo) é preciso saber como elas vão lá parar. É preciso saber, nas suas palavras, como “toda a arma [que] é produzida legalmente (…) em algum momento no circuito se torna ilegal“. Portugal não tem um problema com o tráfico de armas, mas imaginem uma investigação deste tipo às derrapagens financeiras, geralmente de 300%, das obras públicas.

Mas em Portugal está exatamente a passar-se o contrário. Preferimos, como a Cidinha Campos, colecionar escândalos de corrupção. Dou um exemplo! Hoje está a cargo das câmaras municipais decidir que terrenos são agrícolas e que terrenos são e uso urbano (de construção). Quer dizer, pessoas perfeitamente desconhecidas, técnicos da câmara municipal, com um salário de cerca de 2 mil euros, podem transformar um terreno no valor de 5 mil euros num terreno que vale 50 mil euros. Em Portugal, em vez de se mudar a lei (felizmente a nova lei já está em discussão, mas ainda muito longe de ser aprovada), dedicamo-nos a denunciar um ou outro esquema de corrupção… enquanto os outros esperam a rezar não ser apanhados.

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22 de Março de 2011 - Posted by | Economia, Sociedade portuguesa | , ,

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