Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Três pontos de conjuntura

A queda do governo português teve impactos sérios em Portugal. Não tanto nos rumos do governo português, que será governado pelo PEC chumbado, mas nos rumos da sociedade civil. A manifestação de 12 de Março foi capaz de trazer para a política pessoas que se afastaram dela há muito ou, sobretudo, pessoas que nunca quiseram saber dela. A campanha eleitoral que se segue, muito provavelmente, condenará a política portuguesa a mais do mesmo, ocupará o espaço que a sociedade civil conquistou, remeterá estas pessoas à sua toca de sempre.

Não tenho as soluções para este problema, mas penso que quaisquer que elas sejam, devem partir de alguns pontos chave. Deles parto para contribuir com uma proposta.

1. O primeiro é que, seja qual for o governo, serão as orientações de Merkel que irão governar Portugal – como, de resto, já estão a fazê-lo. Alias, o PSD é o mais provável vencedor das eleições que se anunciarão amanhã. Com o FMI à porta, ele terá uma entidade para colocar as culpas e governar como sempre quis. Não tenho razões para pensar que algo tenha mudado em relação ao que escrevi no dia 6 de março e repeti aqui.

Aliás, várias notícias publicadas hoje só confirmam o que acabo de afirmar. Mas vale a pena sempre a pena recordar uma velha notícia que fundamenta, melhor que muitas atuais, a minha opinião: aquela que nos mostra com que intenções Passos Coelho se candidatou a líder do PSD.

2. O segundo é o fracasso das recomendações alemãs. Sem me estender muito, vale a pena dizer que os economistas têm oposto duas soluções para a crise. 1) O Estado deve ajudar o crescimento económico, ainda que isso leve a um aumento da dívida pública. Eventualmente, o crescimento económico ajudará a pagar a dívida do Estado. 2) O Estado deve pagar as suas dívidas, o que implica a adoção de uma política de austeridade. Eventualmente, o crédito libertado pelo Estado será acessível às empresas e permitirá a retoma do crescimento económico.

Estas propostas foram, grosso modo, implementadas a partir de meados de 2010 nos 1) EUA e na 2) Europa, respetiva-mente. Sem acesso ao crédito, os EUA enviaram um pedido de emissão de moeda (impressão de novas notas) à Reserva Federal. Embora a explicação seja fraca do ponto de vista da teoria, a coincidência no tempo entre a emissão de moeda e a recuperação económica americana, que puxou o crescimento económico mundial entre dezembro e fevereiro, faz com que os economistas comecem à acreditar que Obama (e o seu assessor Krugman) acertaram.

Merkel, em dezembro, começou a negociar com Sarkozy uma alternativa aos programas de austeridade (ver o artigo de Brigitte Young). Mas, há uma semana o parlamento alemão impediu Merkel de assumir, no Conselho Europeu que decorre por estes dias, os compromissos que negociava. Por outro lado, um economista neoliberal, J. Bradford DeLong, veio criticar a política neoliberal mundial e, pode depreender-se das suas palavras, que a política de Obama lhe sabe a pouco. Na mesma linha, o Reino Unido, apesar de demagogicamente justificar o plano de austeridade, começa a abandoná-lo e a apostar no crescimento económico.

3. A queda do governo teve duros efeitos na Geração à Rasca. O mal-estar manifesto ontem no Fórum das Gerações traduziu-se de várias formas. Numa crítica aos seus organizadores, denunciando a sua proximidade (por demais conhecida) aos partidos da esquerda e acusando-os de ter levado Passo Coelho ao governo. Na demanda por novas manifestações. Na proposta da constituição de um novo partido político. Etc. Por outro lado, também começou a ser lugar de campanha eleitoral. Quando se anunciava a demissão de Sócrates, pessoas que outros conotaram logo com o PSD, convocaram no Fórum uma manifestação junto à Assembleia das República.

O movimento Geração à Rasca enfrente agora o principal desafio colocado a qualquer movimento social em qualquer parte do mundo: sobreviver a uma campanha eleitoral. Não será fácil devido à sua heterogeneidade. Ele é composto por militantes de partidos de todos os quadrantes ideológicos É, também, composto por pessoas que não gostam de partidos mas que, de modo algum, pensam todas da mesma maneira (isto é, não deixam de professar uma ideologia, ainda que inconscientemente e sem que ela se possa vincular a um dos rótulos famosos). Mas difícil ainda torna-se sobreviver ignorando e escondendo esta heterogeneidade.

Neste sentido, à Geração à Rasca necessita de um programa que supere as disputas partidárias que preencheram esta campanha eleitoral. Já fiz uma proposta: lutar contra os aumentos de impostos e a redução da despesa pública, ambas práticas geradoras de desemprego. Ambas práticas nas antípodas daquela que já provou funciona (em dezembro passado e em 1935, tirando o mundo da crise iniciada em 1929) As novidades destes dias só têm confirmado os pressupostos em que ela assentou.

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25 de Março de 2011 - Posted by | Ideologia | , , ,

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