Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A falsa solução dos círculos uninominais

Na pulverização do movimento Geração à Rasca, que eu próprio defendi, surgiu um grupo no Facebook pela defesa dos círculos uninominais. A vantagem de viver num país onde as votações são uninominais é ter a certeza que esta é uma falsa solução. O Brasil é um sistema um pouco mais complexo do que círculos uninominais puros; é um sistema misto em que metade dos votos são do candidato e metade são dos partidos. Uma vez preenchido metade do Congresso pelas pessoas eleitas de forma uninominal, começa-se então a contagem de voto para os partidos (como em Portugal).

Mas é um facto, para as pessoas o candidato aparece de forma uninominal. Não se faz campanha pelo PT ou pelo PSOL, mas pelo Lidberg e pelo Freixo. Obviamente, isto não dispensa os partidos. Afinal, como financiar uma campanha de outra maneira? Queremos voltar ao século XIX onde só aqueles que vivam de rendas (donos de bancos, donos de empresas e fazendeiros) podiam candidatar-se?

Mas o mais interessante é o debate aqui. Toda a gente quer fortalecer os partidos de modo a tornar o debate ideológico. Aqui se acusa que a personificação de debate levou à sua desqualificação. Não se distinguem ideologias e, por isso, não se distinguem ideias. Tudo se torna eu “eu sou melhor que ele“. Lamento informar os meus amigos brasileiros: o reforço dos partidos não irá resolver isso. Mas também lamento informar os meus amigos portugueses: os círculos uninominais também não.

Tenho dito em vários lugares (por exemplo aqui) que é a concorrência por votos é despolitizante. Ao querer encontrar votos em todos os quadrantes ideológicos, os candidatos são obrigados a deixar de discutir questões propriamente políticas (aquelas que, por não interessarem a todos da mesma maneira, obrigam a um debate político entre diferentes interesses). Os candidatos optam assim por um discurso despolitizado em torno da competência e corrupção que leva ao afastamento dos cidadãos da política.

(A corrupção, embora não me pareça o problema fundamental da crise portuguesa, pode e deve ser debatida de outra maneira).

De modo que não me canso de dizer que o problema tem de ser resolvido pelo lado da sociedade civil. Como disse aqui no dia seguinte à manifestação

Os partidos trocaram o debate político pelo marketing político porque nós deixámos. Não adianta pedir a demissão de toda a classe política se a sociedade não sabe distinguir o que distingue os políticos. Novos políticos, com uma máquina de propaganda, a fazer as mesmas políticas, enganariam-nos em pouco mais de 2 dias.

Por isso as tertúlias que propôs logo no início deste texto. Essa é uma maneira que encontro de constituir essa sociedade civil que não se deixa enganar pelo marketing. Quando professores e intelectuais, da esquerda a direita, entrarem no contraditório político sem necessidade de ir a votos, empregarão argumentos honestos. E o puro marketing dos políticos cairá no ridículo.

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27 de Março de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira, Sociedade portuguesa | , ,

1 Comentário

  1. Muito bom artigo. Faz sentido.

    Comentar por Simão | 31 de Março de 2011


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