Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A esquerda unida?

Gostava de não ser eu a atirar baldes de água fria em esperanças tão recentes. Estou a falar do encontro entre o PCP e o BE para a próxima sexta-feira. Mas isso seria colocar o desejo à frente da análise. Além disso, tenho duas desculpas para poder fazê-lo. A minha palavra não é suficientemente importante para contar para alguma coisa. Tampouco me parece que haja alguma coisa (a possibilidade de uma aliança entre o PCP e o BE para as próximas eleições) que eu possa por em causa. É isso mesmo que quero argumentar neste post.

A primeira coisa que deve ser tomada em conta – porque se fosse estas alianças seriam mais simples – é o que distingue o BE do PCP. Talvez eu seja demasiado teórico, mas neste caso ajuda. Os cientistas políticos costumam classificar as pessoas entre “esquerda” e “direita” de acordo com as suas posições frente a dois tipos de questões. Chamemos-lhes questões “morais” e questões “económicas”. Um exemplo de questões morais é “Concorda com o casamento entre pessoas do mesmo sexo?” ou “É a favor da liberalização das drogas leves?”. Questões económicas são, por exemplo, “Acha que o sector privado deve ter uma participação muito restrita no fornecimento de cuidados de saúde?” ou “Acha que em épocas de crise os funcionários públicos devem fazer greve por melhores salários?”.

Se criássemos uma bateria de perguntas para distinguir os partidos seria difícil distinguir os dois. Talvez o pessoal do ISCTE tenha razão e o PCP esteja à direita do BE em questões morais. Mas tenho dúvidas dessa análise que estes cientistas fazem na sua Bússola Eleitoral (ver gráfico do resultado). O que de facto os distingue, não é tanto o que defendem estes partidos, mas a energia com que o fazem. O PCP tem posições muito semelhantes ao BE sobre questões morais, mas não se dedicam demasiado com a sua realização. O BE está na mesma situação face às questões económicas. Para confirmá-lo estão as posições do PCP em relação ao casamento gay e do BE em relação à ajuda à crise económica grega. Os partidos, num e noutro caso, preferiram seguir a sua análise da “sensibilidade popular” (seja, o PCP propondo um casamento sem direito à adoção; seja o BE apoiando um empréstimo que implicava um plano de austeridade) do que as suas convicções.

É porque um é radical na defesa de princípios onde o outro está aberto a negociar que os dois partidos tendem a desentender-se. Ao mesmo tempo os dois brigam pelo mesmo eleitorado. É portanto normal que se desentendam com frequência e estejam muito preocupados em marcar as suas diferenças. Até porque essas diferenças, não sendo óbvias para os eleitores, precisam de ser constantemente marcadas pelos candidatos. A isto juntam-se o acumulo de atitudes menos dignas que um partido faz para sobrepor-se ao outro. (Sobre este último aspeto, diga-se de passagem, que ninguém é mais capacitado de analisar o BE que um militante do PCP, e vice-versa: ninguém é mais competente para analisar o PCP que um militante BE. Em resultado, não há ninguém capaz de analisar os dois, ou melhor dito, a dinâmica que cria o abismo entre os dois).

É com este pano de fundo que e pode entender a recente tentativa de aproximação entre os dois partidos. Ela parece vir de uma das tendências do BE, o movimento Ruptura. O passado torna difícil essa coligação e os dois partidos não receberam a ideia com bons olhos. Jerónimo de Sousa afastou-a! Mas, o que é facto é que ela teve algum eco entre os promotores e participantes da manifestação do 12 de Março (fui contactado por alguns neste sentido). Francisco Louçã, aproveitou a deixa e afirmou que estava aberto a uma coligação com o PCP, insultando este pelo caminho como um partido ditador que “não se distancia do PC Chinês e de outros regimes ditatoriais”. O PCP respondeu a letra, dizendo-se disponível para uma coligação pós-eleitoral caso os dois tenham capacidade de formar governo.

Leitura de um comunista. Os eleitores de esquerda querem esta coligação, mas o passado dos dois partidos (muito mais antigo que o BE, teríamos de regressar ao PSR, UDP e afins), as divergências ideológicas entre os dois, e tudo mais não o permite. Louçã, ao seu melhor estilo, propôs a coligação de modo a obrigar o PCP a recusá-la e tirar disso dividendos eleitorais. O PCP recusou-se a recusar e chutou a coligação para a frente, para a situação quase impossível de, os dois em coligação, terem a maioria dos deputados da Assembleia da República.

Vamos ver o que acontece sexta-feira. Mas só o facto do MayDay (BE) estar a convocar uma manifestação para o 1.º de Maio sem passar cartão à CGTP (PCP), que todos os anos organiza eventos nesta data, já diz muito da possibilidade de coligação entre os dois partidos.

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5 de Abril de 2011 - Posted by | Ideologia, Partidos | , , ,

1 Comentário

  1. Devo reconhecer que informações posteriores mostram que, até ver, me equivoquei no post anterior. Vale a pena ouvir o que diz Louçã neste vídeo:

    Comentar por Jose Ferreira | 16 de Abril de 2011


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