Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Do PEC IV e do FMI

O PS de Sócrates, deve dizer-se, é muito competente em termos de marketing político. Recentemente inventou a nova fórmula de “coligação negativa” que anda na boca de todos os socialistas, inclusive de Mário Soares. Esta afirmação, independentemente do seu valor, deve assinalar-se, apaga do debate as razões distintas que levaram os distintos partidos a votar o PEC IV.

Ela esconde, por exemplo, que enquanto para os partidos há esquerda do PS não há diferenças entre o PEC e o FMI; para os partidos à direita do PS o FMI é melhor que o PEC. Ao mesmo tempo, parece querer afirmar que quando o PSD muda de opinião, o PCP e o BE também devem mudar. Parece que é mais grave os partidos à esquerda do PS votarem ao lado do PSD do que faltarem às suas convicções, mantendo o sentido com que votaram os três PECs e os dois Orçamentos de Estado que antecederam a referida votação. Esta redução dos acontecimentos tem como único objetivo captar os votos em contra o FMI, isto é, da esquerda, encobrindo as responsabilidades do PS na gestão dos recursos públicos.

Mas sejamos francos: em qualquer circunstância, ante o fracasso da venda de dívida pública da manhã de 6 de abril, o pedido de resgate ao FMI seria inevitável. A questão que se coloca é: com a aprovação do PEC IV o desfecho dessa operação financeira poderia ser outro? A questão só pode ser respondida especulando. A verdade é que os cortes no “rating” da dívida pública portuguesa aconteceram somente depois do PEC IV ter sido chumbado. Mas por outro lado, o fato de Sócrates não se ter dado ao trabalho de negociar o plano de austeridade em Portugal também mostra que ele não se preocupou em demasia com a sua aprovação. Parece que com ou sem PEC IV, o recurso ao FMI seria inevitável.

De qualquer modo,  fica a questão: porque é que o PSD resolver mudar de ideias e preferir o FMI ao PEC IV? Não vou entrar na teoria de que ‘estavam criadas as condições para um assalto ao poder’. Até porque é necessário explicar como foram criadas essas condições. É preciso pensar como, certa elite económica e intelectual portuguesa, começou a defender que Portugal estava melhor no FMI que fora dele. Essa elite que apoiou Sócrates contra o PSD, e contra a  entrada do FMI, mudou de opinião e deu força a Passos Coelho, retirando o tapete a Sócrates. É preciso dizer que essa elite não é composta por militantes do PSD, mas bastante variada. Por exemplo, António Barreto, que defendeu o recurso ao FMI, é militante do PS.

Sem dúvida, a subida constante dos juros da dívida, mais PEC menos PEC, foi levando estes “opinion makers” a mudar de opinião. Os apelos ao recurso ao FMI vêm de, pelo menos, outubro de 2010: certa ala do PSD desejava governar com a supervisão do fundo. Mas Passos Coelho ainda hoje inspira pouca confiança. Nem Manuela Ferreira Leite parece  confiar nele. Assim que a troca de galhardetes entre José Sócrates e Soares dos Santos, no início do ano, pode ser vista como o sinal de que Passos Coelho não dava conta do recado.

Curiosamente, foi o ex-ministro de Sócrates, Campos e Cunha, com apoio financeiro do banco do Estado, a Caixa Geral de Depósitos, que organizou um seminário para mandar recados ao PSD e começar a desequilibrar a relação em favor de Passos Coelho. Ao mesmo tempo, uma mobilização apartidária de jovens ia-se organizando e o seu caráter aparentemente inovador atraiu a comunicação social garantindo o seu sucesso. Cavaco e Silva meteu mais uma acha na fogueira, e no seu discurso de tomada de posse foi muito duro com o governo. No dia 12 de Março, com a manifestação das Gerações à Rasca, o novo governo estava morto. A partir de então o governo desgovernou-se e só entrava em contradição consigo próprio: as contradições entre José Sócrates e Teixeira dos Santos, no dia 18 de março, no Parlamento são só um dos muitos exemplos que se seguiram.

Nestas condições, não restava outra coisa ao secretário-geral do PS que arranjar uma saída airosa do governo. O PEC IV foi a solução que encontrou. Buscando elogios de Merkel, Sócrates nada fez para que o PEC IV fosse aprovado em Portugal. É verdade que pouco havia a fazer… Assim parece que Sócrates pouco mais quis de colecionar uns quantos argumentos para usar em campanha. Há mesmo quem afirme que aquilo que foi negociado em Bruxelas, entre Sócrates e Merkel, não terá sido o PEC IV, mas a vinda do FMI.

Agora pouco nos resta pela frente. Cavaco já lavou as suas mãos do negócio com o FMI; Teixeira dos Santos afirmou não querer falar com o PSD sem intermediários. Enfim, ganhe o PSD ou o PS as próximas eleições, serão Sócrates e Teixeira dos Santos, com os técnicos do fundo, a elaborar o próximo programa de governo.

Post script: Escrevi este texto na madrugada de sábado para domingo. A manhã de domingo traz uma novidade.

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10 de Abril de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , , , ,

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