Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A morte cerebral do governo PS

A revelação recente de Pacheco Pereira faz-me voltar a um assunto que já tratei aqui. Este é mais um post contra a falsa ideia que o governo caiu com o chumbo do PEC IV. Nada mais falso. O governo estava morto há muito; no dia 24 de Março foi desligado das máquinas.

Antes de mais, tenho insistido, não se compreende a política de Sócrates sem regressar ao início de 2009. No início do ano, enquanto Obama e Merkel discutiam entre uma abordagem keynesiana e outra neoliberal para sair da crise, Sócrates tinha já optado por uma keynesiana. Isto quer dizer o quê? Frente a uma situação de forte endividamento público e privado, assume-se que o Estado deve endividar-se ainda mais para fazer a economia crescer e a médio prazo reduzir os dois tipos de dívida. Por isso o TGV!

Mas Merkel defendeu uma abordagem neoliberal: o Estado que resolva o seu problema, através de medidas de austeridade, e eventualmente o mercado resolverá os seus. Temos que lembrar que para a economia neoclássica que inspira os neoliberais, o mercado é um jogo de equilíbrios que resolve os problemas por si. Portanto, Merkel não deu o aval que Sócrates precisava para avançar com os grandes investimentos públicos. Sócrates foi obrigado a negociar o PEC II com Passos Coelho e a entrar numa trajetória de austeridade mas pouco, onde a abordagem neoliberal não era levada a sério e a keynesiana permanecia à espera de oportunidade. Isto é, uma não solução que descredibilizou Portugal frente aos seus credores, o que fez subir continuamente a taxa de juro.

Mas também não é possível achar que o governo de Sócrates caiu devida à sua política ziguezagueante. No início de Fevereiro de 2011, quando o Bloco de Esquerda apresentou a sua moção de censura, a demissão do governo ainda não estava em causa. Mês e meio depois, no dia 12 de Março, o PSD anuncia a sua recusa em apoiar o PEC IV obrigando Sócrates a pedir a demissão. O que aconteceu neste mês e meio? Costumam-me responder: “reuniram-se as condições para o assalto ao poder”. Muito bem. Mas como se reunirão essas condições? (Repare-se que o facto da moção ter sido votada a 10 de Março não nega que ela foi realmente discutida, através da comunicação social, nos primeiros dias de Fevereiro. O mesmo se pode dizer do PEC IV: apesar de ter sido votado dia 24 de Março, o seu chumbo foi decidido no dia 12).

Se podemos justificar o deterioro do governo PS como a subida crescente da taxa de juros da dívida pública, falta ainda identificar o momento em que o paciente falece. Isto é, o momento em que Passos Coelho, em quem a elite intelectual e financeira de Portugal confia pouco (ver aqui também), passou a ser preferível a José Sócrates. Ou mais exatamente, em que momento a réstia de esperança numa abordagem keynesiana, que Sócrates representava, deu lugar à inevitabilidade do FMI há muito defendida por certa ala do PSD?

Este problema é crucial e pouco tratado pela imprensa. A imprensa e os políticos preferem falar da política fetiche onde as consequências das políticas são mascaradas por uma visível guerra de capelinhas entre os partidos. Onde os únicos perdedores aparentes das políticas são os dirigentes partidários que perdem eleições e não as pessoas que perdem com as políticas uma vez implementadas.

De qualquer modo, é sempre possível regressar ao final de Fevereiro e dar conta de duas conferências importantes. A primeira, organizada pela CEDES e pelo Diário de Notícias, no dia 25 de Fevereiro, com apoio da Caixa Geral de Depósitos. Nela palestraram Campos e Cunha (ex-ministro de Sócrates), Mota Amaral (dirigente do PSD), Luís Palha (administrador da Jerónimo Martins), entre outros. A segunda, foi organizada pela TSF e pela Reuters, no dia 28 de Fevereiro, contando com a presença de conhecidos banqueiros como Fernando Ulrich (BPI) e Ricardo Salgado (BES). A primeira anunciava a inevitabilidade de uma austeridade severa; a segunda a recusava ou, pelo menos, recusava o FMI.

É impossível ir mais fundo do que isto, mas sabe-se que Fernando Ulrich data de 4 de Março a sua mudança de opinião. O discurso de tomada de posse de Cavaco e Silva, a 10 de Março, sobretudo pelo modo como foi tratado na comunicação social, foi o golpe final no governo. Mas poderá até ter sido antes, pois há quem afirme que a 11 de Março já se negociava o pedido de resgate ao FMI e com conhecimento do Presidente da República e do PSD.

A partir de 12 de Março entramos no pior do que a política tem de oferecer. Decidida e acordada a queda do governo, começa o braço de ferro em torno da entrada do FMI. Ao PS interessava protelar a entrada do FMI para depois das eleições, para apresentar-se nelas como o partido contra o FMI. Ao PSD interessava que o FMI fosse chamado ainda por este governo para ter mais um argumento para usar em campanha. (Perdoem-me a teoria da conspiração, mas o facto de Passos Coelho ter sido desmentido por um membro do próprio partido e não por Sócrates que com ele se reuniu convida a isso. Chego a acreditar que o acordo entre os dois foi além das medidas a negociar com Merkel, e incluiu também o fim do governo e a entrada do FMI).

No dia 12 de Março, quando Passos Coelho anunciou que ia chumbar o PEC, o governo de Sócrates já estava em morte cerebral. A partir de então a briga foi sobre quem vai ficar com a fava desligar-lhe a máquina!

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16 de Abril de 2011 - Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , ,

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