Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Política fetiche

Numa troca de emails, procurei expor algumas considerações acerca do abstencionismo político que vão na linha de textos já escritos aqui e aqui no blog.

Vou começar por expor a minha conclusão: os partidos afastam-se dos cidadãos, e perdem qualidade, por não querem discutir política. Esta reflexão puramente hipotética e especulativa baseia-se em três argumentos. Primeiro, numa definição concreta de política. Segundo, numa especulação acerca dos mecanismos que criam este afastamento. Terceiro, com base no anterior, teço algumas considerações sobre como recuperar a qualidade dos partidos políticos.

A) Considero que questões propriamente políticas são aquelas que interessam desigualmente aos cidadãos. Em primeiro lugar, porque os indivíduos não todos iguais, portanto a mesma decisão não afeta igualmente a todos. Em segundo lugar porque os interesses estão normalmente em conflito. O primeiro argumento é óbvio; o segundo é remetido para a tentativa vã de buscar um ponto intermédio. Vejamos:

Para não cairmos no tradicional conflito patrão/operário, pensemos na seguinte questão: a política do Estado para ajudar o crescimento económico deve voltar-se para o apoio às exportações ou para a dinamização do consumo interno? Dirão que é possível chegar a um meio termo. Mas a verdade é que num “meio termo” estamos sempre. O que se trata é de deslocamentos do “meio termo”. Esse deslocamento far-se-á em favor dos exportadores ou dos produtores para o mercado interno? Dirão que não são opções em conflito! Também será um equivoco. A dinamização do consumo interno faz-se aumentando salários ou a despesa do Estado. Para os exportadores isso representa apenas custos, salários e impostos respetivamente.

E finalmente, as questões onde todos estamos igualmente interessados não são propriamente políticas, porque não precisam de ser politicamente negociadas. É o caso da assistência às vitimas de um terremoto, ou algo semelhante.

B) No entanto, os partidos estão interessados em conseguir votos em todos os quadrantes sociais. Votos trabalhadores e patrões; de pequenos comerciantes e de grandes empresários; do sector da exportação ou do  sector do consumo interno. Isso obriga a estratégias, às vezes, muito criticáveis. Como de um célebre candidato à primeiro-ministro que afirmou que afirmou que “a Europa é um assunto demasiado sério para discutir em campanha eleitoral”. Mas estes são casos raros. Mais comum é usar uma linguagem vaga. Poucos dos que afirmam hoje que é necessário reduzir a despesa do Estado têm a coragem de Medina Carreira ao afirmar que é preciso reduzir a despesa com médicos, professores e reformados. A maioria fica-se por um “é necessário cortar na gordura do Estado”. Estes não se estão a referir aos luxos dos políticos porque eles sabem, como Medina Carreira afirmou há dois dias na SIC, é preciso cortar muito mais despesa do que aquela que existe aí.

Mas essas nem são as estratégias mais importantes. Existem outras duas, tão enraizadas, tão aparentemente naturais, que nem sequer são conscientes. A primeira, e mas importante, é reduzir os embates políticos a embates entre partidos. Tudo é apresentado como um braço de ferro entre esquerda e direita, um partido e outro, geralmente associado a uma caça de votos, e nunca pelas suas consequências na vida real. Os partidos encontram na comunicação social o melhor amigo destas estratégias. Um aumento do salário mínimo, como aconteceu recentemente no Brasil, é apresentado nas televisões como um braço de ferro entre governo e oposição, acerca do valor em causa, sem qualquer referência às consequências macro-económicas e sociais que dele podem resultar.

A segunda é reduzir a diferença entre os partidos ao carácter moral dos seus dirigentes. Cada vez mais, o que está em causa numa campanha eleitoral é quem é o mais competente, o mais honesto e o menos corrupto (o que sem dúvida sobrevaloriza o papel da corrupção no diagnóstico dos problemas da economia portuguesa). Aquilo que diferencia os políticos em termos de visão de país, não é tocado em campanha. Mesmo essas diferenças que se escondem por detrás de disputas partidárias e sofismas, comentadas atrás, desaparecem numa campanha eleitoral. Podemos observá-lo nos dias que correm.

C) Nestas condições, é de esperar que os cidadãos não contem com a informação pertinente para decidir politicamente, isto é, votar ou abster-se. O debate dos partidos torna-se ininteligível para os eleitores. Os debates políticos ora parecem guerras de seitas, ora entram apelam para argumentos que os eleitores podem avaliar. Quando o debate político se transforma num debate de partidos, torna-se, aos olhos dos cidadão, uma guerra de capelinhas sem sentido. Quando o que está em causa é a qualidade pessoal dos líderes políticos, os cidadão não têm nenhuma capacidade de corroborar qualquer argumento. Conhecer as qualidades pessoais de alguém implica conhecer pessoalmente a pessoa em causa.

Ainda assim, estou longe de dizer que os partidos são todos iguais. Pelo contrário! As diferenças, não obstante, aparecem camufladas pelo que disse atrás deste discurso. A política fetiche, mapeada no ponto B, preserva a forma e boa parte dos elementos de conteúdo da política propriamente dita, definida no ponto A. Quando a política é tratada como uma guerra de capelinhas, como há um ano foi reduzido o debate sobre a Reforma Constitucional, estão em causa valores morais e visões sobre a economia importantes. Mas essa guerra de capelinhas, essa política fetiche, serve para camuflar as suas consequências, sobretudo para os perdedores. Não fazê-lo, faria o partido perder votos. (Daí que não seja irracional dizer que ninguém expõe tão claramente a posição de outro partido que o seu adversário).

Anúncios

16 de Abril de 2011 - Posted by | Partidos, Sociedade portuguesa | , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: