Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O dia F de FMI

Enquanto a campanha eleitoral se desenrola sem questões interessantes, e sondagens e mais sondagens mostram o que já tinha sido previsto, eu prefiro chamar a atenção para os dias que antecederam o anuncio do pedido de resgate ao FMI. A 6 de abril o Estado não conseguiu angariar os fundos que precisava até junho, e por isso, na tarde, chamou o FMI. Após a queda do governo e o corte no rating da dívida pública portuguesa, era de esperar que a procura estrangeira de títulos de dívida pública não fosse notória, como aconteceu um mês antes. A esperança assentava nos compradores nacionais, que, no mesmo dia, recusaram fazê-lo. Recusaram aparentemente por duas razões. Em primeiro lugar, o corte no rating da dívida portuguesa poria em causa os bancos nos stress tests anunciados por aqueles dias. Mas também o BCE parece ter feito pressões sobre a banca portuguesa obrigaria o governo a chamar o FMI.

O que é de assinalar é que enquanto alguns empresários e certa elite intelectual do país apelava a uma intervenção do FMI, porque é que os bancos necessitaram de pressões externas, nomeadamente do BCE, para retirarem o tapete ao governo?

Para responder a esta questão é preciso dizer quem são esses empresários que desde novembro apelam ao resgate ao FMI.  Pela troca de galhardetes entre Sócrates e Soares dos Santos ou as críticas que Henrique Neto dirigiu a Sócrates, sabemos que são os exportadores que tomaram a liderança do apelo ao FMI. A pergunta que fica é o que faz diferir os exportadores dos bancos? É que a dívida pública portuguesa é de 92% do PIB enquanto a dívida privada é de 220% do PIB. E enquanto aos bancos compete ser responsáveis pela dívida privada portuguesa, aos exportadores a dívida pública é que pesa no bolso através dos impostos. Estes há muito que se endividam lá fora, sem recurso ao sistema bancário português. Por outro lado, sem crescimento económico, uma dívida só pode ser reduzida à custa da outra – a dívida privada aumentará seguramente para fazer face à pública. O aumento de impostos sobre as famílias vai fazer com que muita gente que comprou casa deixe de ter condições de pagar as suas dívidas. Muitas pequenas e médias empresas endividadas irão declarar falência. Por isso os bancos não queriam austeridade mas crescimento!

Fica a pergunta: com medidas de austeridade impostas pelo FMI, quanto faltará para um novo caso BPN? Pensando bem, talvez não venha a suceder. O FMI parece já ter encontrado o modo de abrir um canal de vazamento de dinheiro dos cofres do Estado para os cofres dos bancos privados. Talvez tenha sido esse canal de vazamento a moeda de troca que o BCE prometeu aos bancos, no dia 5 de abril, para fecharem o crédito ao Estado.

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22 de Abril de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , , , ,

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