Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Grécia: ameaça de tempestade

Ainda não tinham passado quatro dias de se haver cogitado uma medida radical para a crise grega – a reestruturação da dívida – se especulou sobre uma medida ainda mais radical: a saída do euro (ver aqui e aqui também). A proposta de saída da Grécia do euro parece atrelar-se a dois motivos. Por um lado, a vox populi dos europeus do norte tem atribuído a dívida à incompetência da gestão pública dos países do sul. Por outro lado, observamos também alguns economistas a afirmar que somente devolvendo a soberania monetária aos países do sul, tais países teriam hipótese de enfrentar a crise. Curiosamente esse discurso é feito por economistas do norte. E quem afirmou que o governo grego cogitou sair do euro foi… um jornal alemão.

Obviamente, como notaram de imediato os jornalistas, a saída de um país do sul do euro acarretaria uma desvalorização acelerada da sua moeda. A dívida fatalmente aumentaria. A fuga de capitais também não se faria esperar, colocando a Grécia (ou outro país do sul) em face de um problema de liquidez. Por isso mesmo, quando os economistas do sul falam do tema, afirmam que a saída da Alemanha do euro seria o ideal. De qualquer forma, do debate sai uma conclusão: como afirmam os desmentidos da possível saída da Grécia do euro, o programa da ajuste estrutural não está a resultar. E também é possível inferir que, se há solução, ela implica alterações nas políticas monetárias. Logo, que a política monetária europeia não é adequada à situação que vivem os países do sul da Europa. Aliás, parece mesmo ser somente adequada à Alemanha!

Pode antecipar-se que paira no ar a inevitabilidade de uma mudança de política do BCE. A crise da dívida dos países do sul está a exigir isso. Por outro lado, a burguesia financeira alemã quer evitar isso a todo o custo, pondo em cima da mesa a saída desses países do euro. Por isso ninguém fala que medidas de política monetária poderia a Grécia levar a cabo com a saída do euro. O que está em causa não é uma solução para a Grécia; é a Alemanha querer livrar-se desse problema. Além do mais, se tais medidas fossem expostas claramente, a pergunta seria: porque é que o BCE não faz isso? Se Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, mas também Bélgica e outros países menores estão em situações semelhantes, tem toda a lógica resolver o problema a partir de uma dimensão europeia. A resposta seria: porque não interessa a Alemanha! De fato, também não interessaria igualmente à banca francesa, mas Sarkozy tem posto algumas areias na engrenagem da política do BCE. (Ainda não consegui entender porquê).

De qualquer modo uma boa notícia: a sacrossanta política de austeridade do BCE começa a estar posta em causa. Abre-se um espaço interessante de debate, embora a correlação de forças esteja muito desfavorável a uma boa solução. O único adversário à altura dos falcões do défice é a própria realidade.

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8 de Maio de 2011 - Posted by | Economia, Europa | , , ,

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