Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Dívida pública

Os militantes do PSD acusaram o PS de ser o principal responsável pela dívida pública de Portugal. Há dias recebi um militante do PS a acusar o PSD do mesmo. Este último deu-se ao trabalho de explicar as suas fontes, o que me permitiu refazer as suas contas… E chegar a conclusões diferentes.

Como ponto de partida, recorde-se que o PSD esteve mais anos no poder na primeira metade do gráfico e o PS esteve, ao contrário, mais anos no poder na segunda metade. Isto permite aos publicitários do PSD mostrar o gráfico da esquerda e dizer que a dívida nunca esteve tão alta como com o PS no governo. Os publicitários do PS mostram o gráfico da direita e afirmam que a dívida nunca cresceu tanto como com o PSD a comandar.

Mas os gráficos a baixo são claros: a dívida cresceu de forma linear (ajustamento de 97%), independentemente do partido que esteve no governo. O crescimento da dívida foi-se reduzindo também de forma logarítmica (ajustamento de 85%). Reduziu-se simplesmente porque endividar-se 5 milhões quando a divida nesse momento é de apenas 10 milhões é fazer a dívida crescer 50%. No momento em que a dívida alcança 50 milhões de euros, pedir emprestado os mesmos 5 milhões, representa apenas um aumento de 10%.

Sejamos honestos: a responsabilidade do PS e do PSD sobre a dívida é igual. A dívida do Estado foi gerida em piloto automático e nenhum dos dois pretende dar uma explicação válida para esse assunto. Para o PS a causa da dívida foi o PSD; para o PSD a causa da dívida é o PS. Assim não vamos longe.

Felizmente, há outras vozes no panorama. Outras, embora menos ouvidas. O PCP, a consultora britânica Ernst & Young e o diretor do FMI Strauss-Khan têm concordado que o problema não está na dívida, mas no crescimento económico. O Estado não gastou demais; gastou mal!!! Negociou uma entrada na CEE com os pés favorecendo três lobbies: a banca, a construção civil e o turismo. Comprometeu a geração de riqueza do país e teve que endividar-se face às necessidades crescentes de financiamento. Há medida que mais portugueses exigiram os seus direitos (a melhor saúde, melhor educação e reformas) o Estado foi pedindo emprestado para compensar os erros de política económica.

Mas se existem dúvidas, comparemos com Espanha. Como mostram os gráficos abaixo, a despesa do Estado cresceu sempre mais em Espanha do que em Portugal. Não obstante, a dívida do Estado espanhol reduziu-se ao longo dos anos (até à aproximação da crise económica internacional). Ora, que outra diferença entre os dois países que esta: Espanha cresceu e Portugal não?


Apontamento metodológico

Os dados para a confeção dos dois primeiros gráficos foram obtidos no site do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito PúblicoStock da Dívida Directa do Estado (série longa). Os valores nominais do primeiro gráfico foram transformados em valores percentuais por mim para a confeção do segundo gráfico e os dois foram ajustados a uma regressão linear e outra logarítmica, respetivamente. Deve reconhecer-se que a dívida contraída através de Parcerias Público-Privadas está fora dos dados disponíveis o que impede uma avaliação mais rigorosa.

Os dados para a confeção dos dois gráficos seguintes foram obtidos no Eurostat. A Despesa do Estado é fornecida em percentagem do PIB e, para a confeção do gráfico apresentado, foi necessário multiplicar esses valores pelo PIB per capita a preços de mercado. Os dados da Dívida Pública em percentagem do PIB são os fornecidos pelo Eurostat. Infelizmente o Eurostat tem poucos dados anteriores a 2000 o que obrigou a reduzir a amplitude do período análisado.

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9 de Maio de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , , ,

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