Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre classes

As classes são o tema transversal deste blog. O post de abertura foi dedicado ao tema e a ideia de classe média me preocupou mais do que uma vez. Trata-se, enfim, de ter algum controlo sobre a análise da política. Classificar permite fugir à grande tentação de pensar que há um interesse nacional homogéneo, do qual somente a incompetência dos políticos desvia o governo. Por outro lado, permite também escapar da armadilha de afirmar que há tantos interesses como homens. Esta ideia é tão verdadeira quanto inútil. É verdade que dois irmãos gémeos não pensam exatamente da mesma maneira. Mas analisar a política portuguesa partindo da ideia que existem 10 milhões de opiniões diferentes é simplesmente perda de tempo.

A alternativa é, efetivamente, classificar. De facto, fazemos isso todos os dias. Esta brincadeira dos Monty Phyton só é possível porque todos partilhamos da ideia de que os contabilistas são pessoas chatas sem sentido de humor. Trata-se de um classificação que nos permite antecipar as expectativas e os interesses dos outros e reduzir as nossas incertezas. É claro que o outro lado da moeda é o racismo. O racismo não é mais que uma forma de classificação, nisso semelhante a qualquer outra, mas com efeitos negativos exacerbados. A pesquisa sociológica não é muito diferente do senso comum no uso de classificações. Ela procura explicar e antecipar a ação dos indivíduos munindo-se de classificações. Existe somente uma diferença fundamental: enquanto as pessoas comuns usam classificações culturalmente dadas sem pensar muito nelas, os sociólogos têm (ou devem ter) um uso controlado dessas classificações. A pergunta “qual é o limite de validade deste sistema classificativo?” ou, por outras palavras, “em que situações uma classificação não serve?” é uma pergunta que está sempre omnipresente na mente científica.

O maior contributo de Marx para a análise de classes foi ter identificado o que verdadeiramente está em jogo nos sistemas de classificação: a distribuição de capital.  Quase sempre o debate em torno de Marx gira em torno da crítica ou da defesa da sua visão estritamente económica. Tal debate faz praticamente desaparecer o essencial o argumento de Marx. Algo só se torna um capital somente em certas situações. “Uma máquina de tecer é uma máquina de tecer. Somente em certas condições sociais se torna capital”. Isto é, somente quando a posse de algo, por um indivíduo, ou por um grupo (classe), se torna um sinal de distinção (no duplo sentido, de diferente dos outros e prestígio) essa coisa se constitui como capital. O anterior leva a uma questão: a classe distingue-se de quem? Quer isto dizer que a classe só existe por referência as outras e nunca existe per si. Isto é, antes da invenção as cidades, não havia “pessoas do campo”. Mais, as classes agrupam indivíduos que se opoem e, ao mesmo tempo, cooperam. Sem cooperação não havia relação entre os indivíduos; não teria sentido falar de classes. Mas porque são diferentes eles têm interesses e formas de ver o mundo distintas. Por isso memo  o conflito existe sempre, pelo menos em de forma latente.

Neste sentido, o que Marx propõe é um deslocamento do problema. Ele não está interessado em dizer quantas classes existem e não teve problemas em identificar 5 classes para escrever o 18 de Brumário. Aliás, as pessoas já classificam quando falam de política: os banqueiros, os esquerdistas, dos trabalhadores, etc. O que Marx se propõem é em deslocar o olhar da classe em si para as relações entre classes e a distribuição desigual de capitais que lhe é subjacente. Por outras palavras, trata-se de explicar as atitudes de um determinado grupo, não pela suposição de uma naturalidade na sua forma de agir, mas como resultado da relação que se estabelece entre aquele e outros grupos.

Posto isto, parece-me um equivoco saber se existem duas, três ou vinte classes sociais. O que interessa é explicar as razões porque a sociedade atual permanece flutua entre uma classificação com dois termos (rico/pobre; burguês/operário, etc.) e outra com três (classe alta/classe média/classe baixa), como afirma David Cannadine. Mas ao contrário do que Cannadine e o marxismo vulgar afirmam o que está em jogo não é o número de classes realmente existente. O que importa é encontrar aquilo que permite às pessoas empregar o termo de classe. Por outras palavras, é descobrir quais são as coisas que funcionam como capital, como elas se tornaram capital, e como isso influencia a política e a cultura de uma sociedade. Marx considerava que a oposição fundamental da sociedade contemporânea se estabelecia entre trabalhadores e patrões… e dedicou a fase final da sua vida a estudá-la.

— Como nos filmes: continua —

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23 de Maio de 2011 - Posted by | Metodologia | , ,

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