Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A vanguarda

Alertado por um amigo fui parar este vídeo e a um debate que ocorreu no Facebook em torno dele. Os protestos são os ocorridos no Rossio no passado 19 de Maio por contagio dos protestos de Espanha. Os manifestantes gritam: “o povo unido não precisa de partido”. E o debate, no Facebook, se levanta em torno da debilidade de consciência dos manifestantes e da necessidade de uma vanguarda esclarecida para conduzir o processo. O debate é, portanto, histórico para a esquerda e, por isso, vale a pena registar aqui uma posição. Mas o meu argumento é que este é um falso debate.

A questão remonta pelo menos à troca de argumentos entre Lénin e Rosa do Luxemburgo. Ele estabeleceu o programa para a constituição de um partido de vanguarda, cujos membros eram revolucionários profissionais, isto é, pessoas libertadas dos afazeres da vida quotidiana. Ela criticou esse programa dizendo, em última análise, que o partido é o proletariado. De uma machadada, Rosa de Luxemburgo recusava tudo o que pudesse associar a ideia de vanguarda a uma elite politicamente preparada pela separação do proletariado. A resposta de Lénin foi feliz. Para o russo, tudo o que a alemã afirmou estava correto, mas apenas quando consideradas as condições políticas da Alemanha. Ele escreveu o seu programa pensando nas condições da Rússia Czarista. Por outras palavras, a natureza de uma vanguarda revolucionária é inseparável das condições políticas onde ela aprece.

Mas, mesmo assim, será ridículo assumir que precisamos apenas de identificar o meio termo ajustado às condições políticas que atualmente se vivem em Portugal. É necessário, pelo contrário, perceber o papel de uma vanguarda na sua dinâmica, isto é, na relação que estabelece com as massas.

As massas estabelecem, organicamente, a vanguarda que necessitam. Eis a tese que pretendo demonstrar. Um dos problemas fundamentais dos movimentos de massa é dotar-se de uma direção, isto é, um conjunto de objetivos comuns em torno dos quais se unam todos os indivíduos. Mas esta direção nunca se é clara nem fácil. É sempre alvo de disputa. O Movimento de 12 de Março (M12M) está envolvido nestas contradições. Como já afirmei várias vezes neste blog, o movimento divide-se entre um discurso económico (contra o desemprego, a precariedade e os baixos salários, etc.) e um discurso moralista, que toma como alvos o sistema político e a corrupção que nele se propaga.

Creio que não é necessário estender uma argumentação sobre este desencontro no seio do M12M. Tampouco pretendo aqui defender uma posição que, de resto, já defendi em outros lugares. O que interessa aqui é notar que esta disputa porá em relevo aquelas pessoas que nela tomam relevância. Cada uma das direções (caminhos) que um movimento pode tomar tem a defendê-lo um grupo de pessoas. Propor uma direção é, inevitavelmente, propôr-se como grupo dirigente. Do mesmo modo, preterir as outras direções é derrotar outros que pretendem dirigir o movimento. Em política, optar entre ideias é optar entre pessoas. É por isso que os movimentos horizontais tende a ser pouco eficazes politicamente. Eles esquecem que a  luta pela direção do movimento tem este duplo sentido: a seleção dos dirigentes é a seleção do caminho a seguir, e vice-versa. Evitar a disputa entre pessoas é, salvo raras exceções, não levar a sério a definição da estratégia do movimento. As duas coisas estão intimamente imbricadas e dificilmente podem ser separadas. E quando o movimento encontra a sua direção é porque já “escolheu” os seus dirigentes, isto é, a sua vanguarda.

Isto leva-me imediatamente a dizer que a questão da necessidade ou não de uma vanguarda para o movimento de massas é uma falsa questão. Somente frente àqueles que se arrogam uma vanguarda à espera que o movimento a reconheça como tal, é possível afirmar que o movimento não necessita de vanguarda. Ambos cometem o erro de desvincular a formação da vanguarda do amadurecimento do movimento, isto é, do auto-esclarecimento das massas sobre os objetivos pelos quais se batem. No entanto, não existe vanguarda sem um movimento esclarecido que a funde, e não existe movimento esclarecido que não funde a sua vanguarda.

De qualquer modo, quase nunca está questão está colocada em termos genéricos. O debate entre a necessidade ou não de uma liderança, ou de uma vanguarda, tornou-se arma de arremesso, património da esquerda, para usar entre a esquerda, em função das circunstâncias. Analisando caso a caso, facilmente compreendemos que somente se arroga vanguarda quem quer legitimar a sua proposta de direção na sua suposta competência teórica. E “acredita” no poder das massas quem quer desqualificar aquela. (O que quer dizer que aqueles que se dizem vanguarda, como aqueles que rejeitam qualquer vanguarda não são mais que dois grupos em disputa pela direção do movimento).

Isto significa que o debate está duplamente deslocado de sentido. Em primeiro lugar, não se trata de saber se um movimento necessita ou não de uma direção (no duplo sentido). Trata-se, antes, de saber de que direção ele necessita. Em segundo lugar, quando surge a questão de se o movimento necessita de uma vanguarda ou não, ela não se apresenta como um fim em si. Ela não é mais que uma coberta para a disputa entre dois grupos que disputam a direção, um que se arroga vanguarda e outro que pretende desqualificá-lo. Enfim, trata-se de um debate espúrio. O que está em causa, o que interessa ao movimento, é que direção o movimento deve tomar para si?

Falar na necessidade de uma vanguarda quando se ouvem os jovens gritar “o povo unido não precisa de partido” é, antes de tudo, discordar da direção que essa palavra de ordem imprime ao movimento. É propor-se outra direção, outro caminho, outra palavra de ordem como mais esclarecida que aquela. Criticar a ideia de uma vanguarda é defender essa direção. Eu, pela minha parte, tenho-me batido contra essa linha de força que trata todos os políticos todos como iguais. Jamais apoiarei tal palavra de ordem. Mas faço as críticas de outro prisma.

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24 de Maio de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | ,

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