Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O plano do FMI

Este é um post atrasado, para registar o óbvio. Tem essa finalidade: registar. Por um lado, o governo assegurou ter conseguido um bom acordo, que não é tão duro quando se esperava. Os jornais alemães dão-lhe razão: a Portugal foram pedidas medidas de austeridade menos duras que à Grécia e à Irlanda. Por outro lado, o partidos à esquerda do PS criticaram as medidas duras do acordo. O que os distingue? É que eles não falam da mesma coisa. É que enquanto Sócrates pôs a tónica na redução da despesa pública, o PCP e o BE, bem como a CGTP, chamaram a atenção para os compromissos com a legislação laboral. Como seria de esperar, as medidas do acordo visaram, principalmente, alterar as regras do mercado de trabalho em Portugal.

O foco do FMI no mercado de trabalho e no mercado de arrendamento, mostra que o problema, como vem sendo dito, não está na dívida pública, mas na dívida privada. O FMI acerta no que era óbvio e que tem sido veiculado pelos partidos e organizações à esquerda do PS desde há muito: o problema nunca esteve na dívida pública, mas na dívida  externa global e no fraco crescimento. O Banco de Portugal veio dizer o mesmo:

Os investidores internacionais singularizaram a economia portuguesa principalmente em função do elevado nível de endividamento externo e do baixo crescimento tendencial, em conjugação com níveis do défice e da dívida pública relativamente altos e superiores ao esperado (fonte).

Não obstante, esta aproximação do FMI no diagnóstico da esquerda não é novo: já tinha notado aqui a sintonia entre Strauss-Khan e as posições do PCP. Obviamente, a posição do ex-diretor do FMI era uma posição contracorrente, com parcos resultados. Talvez  o acordo com Portugal tenha sido o seu maior (pequeno) logro. Tanto que houveram divergências entre o FMI e o BCE acerca dos esforços exigidos ao governo português. Agora Strauss-Khan preso, nada garante que o fundo se continue a afastar do seu método de trabalho tradicional.

Por outro lado, outra coisa deve ser notada. Se o FMI pareceu de esquerda no diagnóstico, não o foi na solução. A estratégia foi baixar salários para promover o investimento privado. Mais exatamente, facilitou os despedimentos e a foi mais longe com a flexibilidade laboral. As medidas combinadas vão pressionar os salários para baixo. Por um lado, a flexibilidade vai permitir uma otimização do trabalho, permitindo aos empregadores dispensar trabalhadores. Por outro, o aumento do desemprego pressionará, por simples lei da oferta e da procura, os salários para baixo. (Claro que isto supõem que as vendas das empresas se mantêm. Por isso, um aumento da produtividade dos trabalhadores devido à flexibilização, gera mais desemprego. E esse até é um cenário otimista. Como a maior parte das empresas portuguesas depende do mercado português e espanhol é provável que, com este tipo de medidas, as vendas baixem. Só por si, a crise, associada à facilitação dos despedimentos, vai gerar desemprego e pressionar os salários para baixo).

O plano do FMI pressupõe que os empresários portugueses consigam encontrar mercados fora da Europa: uma receita que não é nova. Mas se os empresários não conseguirem identificar e investir nestes mercados, o plano vai fracassar. E, nesse momento, as obrigações do Estado com a dívida e, agora, com o empréstimo do FMI falarão mais alto. Será necessário aumentar novamente impostos, privatizar serviços públicos, etc. para pagar a dívida. O aumentos dos custos de vida das pessoas vai, mais uma vez, reduzir o consumo dos portugueses e gerar desemprego. Mas nem é preciso que o plano falhe; basta tão só que não alcance plenamente os seus objetivos. É por isto que o governo grego, de três em três meses, é obrigado a impor novas medidas de austeridade. Quando a vontade resolver os problemas da economia e a necessidade de pagar aos credores entram entram em conflito, os credores levam a melhor.

O plano do FMI acertou no diagnóstico, mas encerra dois problemas. Em primeiro lugar, ao colocar os credores acima de qualquer outra coisa, impede os governos de tomar medidas verdadeiramente eficazes para resolver a falta de crescimento económico. A necessidade de ter dinheiro a curto prazo impede o Estado de investir para ter dinheiro no futuro. Não é por acaso que a Grécia está a chegar a um ponto em que nada mais há a fazer. Em segundo lugar, a elaboração do plano fez-se acompanhar por uma falso debate. A tónica está colocada no problema da dívida e, ao mesmo tempo, a procura de saber quem é o culpado da dívida. Isto faz com que as soluções para colocar Portugal a crescer não sejam procuradas nem debatidas. Enfim é simplesmente inexplicável que, se todos os especialistas reconhecem que a dívida é um problema derivado da falta de crescimento económico, se discuta na imprensa o problema derivado e não o fundamental. Este facto dificultará ainda mais os portugueses e, em particular, aqueles que têm a vocação de empreendedores, a encontrar soluções alternativas até àquelas apresentadas pelo FMI.

Anúncios

28 de Maio de 2011 - Posted by | Economia, Ideologia, Portugal | , , , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: