Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Rossio: revisionismos e sectarismos

Porque é que o sistema democrático atual não funciona? Esta é uma das perguntas que deve nortear a análise do que se passa no Rossio. E tomando o Rossio como ponto de partida, me recuso a discutir revisionismos e sectarismos desligados de um contexto dado. Assim, a formação e comportamentos revolucionários, revisionistas e sectários só tem sentido frente à constituição de uma vanguarda de um determinado movimento. Por isso, este texto parte da disputa em torno do que fazer frente à democracia doente que hoje existe em Portugal (ultrapassando, sem dúvida, o que se passa no Rossio).

Tenho escutado análises que me fazem pensar que certas pessoas acreditam que com políticos honestos e empresários patrióticos Portugal não teria chegado à crise económica, social e política que atravessa. Opiniões segundo as quais a origem do mau governo do país está nas opções de Sócrates, Passos Coelho e outro políticos incompetentes ou corruptos. Mudando-se o homens, mudam-se as consequências. Ao ignorar o quanto a dinâmica do sistema político “escolhe” este tipo de políticos, os reformistas não fazem mais do que mudar os rostos para que nada mude. É óbvio que, hoje, a capacidade de oratória dos políticos se sobrepõem sobre qualquer outra competência. Desse modo, o sistema escolhe políticos capazes de defender qualquer coisa sem a necessidade de saber ao certo o que defendem.

A esta posição reformista opõe-se o radicalismo de esquerda. Para estes a crise portuguesa é a prova do esgotamento do sistema democrático atual. Torna-se necessário refundar o sistema. Mas é uma reforma proposta no vazio, como se desaparecesse de imediato aquela regra (e outras) que leva a que um político bem falante tenha mais votos que um homem honesto e estudioso. O radicalismo de esquerda é, na essência, irmão do reformismo. Ambos esquecem que existem relações de força à priori da política e que, por isso, os políticos não são livres nem para refundar o sistema. E, mais grave, ambos ignoram o sistema.

O espontaneísmo das massas é o caldo no qual fermentam estas duas formas de revisionismo. Aparentemente antagónicas, eles convivem sem conflito. A luta contra elas é, portanto, a luta contra o espontaneísmo das massas. O reformismo não é uma direção; é a ausência de direção e consciência das massas. Enquanto as massas não se conhecerem a si mesmas a partir da relação com os outros, e aos outros a partir de si mesma; enquanto esse conhecimento não for eminentemente prático, isto é, orientar a ação consciente, o reformismo e o radicalismo de esquerda terão mais eco nas massas que um discurso revolucionário.

Imediatamente, o movimento do Rossio deve responder as duas questões. Porque é que o sistema republicano fracassou (espero dar a minha contribuição em breve, através deste blog)? E quais são os limites do movimento, isto é, qual é a sua similitude e diferenças com outros movimentos – do M12M à CGTP – e que consequências isso deve ter para a sua intervenção política? O texto do Miguel Tiago, deputado do PCP, coloca este problema por meias palavras: “O facto de ignorarem a história do movimento revolucionário internacional – além de em aspecto algum lhes ser imputável – mostra sobranceria involuntária, mas genuína vontade“. Não se trata, pura e simplesmente, de conhecer a história, mas de saber que não são os únicos que lutam e que lutaram contra o desemprego e precariedade laboral. Este desconhecimento leva o movimento do Rossio a não fazer ideia das dificuldades que enfrentam para levar avante a sua bandeira. Leva-os, igualmente, a não ter condições para distinguir aliados de adversários. Leva-os, finalmente, a sobrevalorizarem a sua capacidade de produzir mudanças.

Como se vê, a luta contra o revisionismo é, antes de tudo, o esforço que o movimento faz, ou deve fazer, para a sua auto-compreensão. Não se trata afastar ideias falsa para dar lugar ideias verdadeiras, mas aprofundar o conhecimento que a massa tem sobre a sociedade. Trata-se de substituir ideias superficiais por ideias mais profundas (nos termos de Marx – que não explicarei aqui – de substituir ideias abstratas por ideias concretas). Isto tem duas consequências! Primeiro, não se trata de afastar falsas consciências, como o o lema “o povo unido não precisa de partido“, mas entender os motivos porque tais lemas surgem e passar da luta contra o aparente para uma luta contra o profundo. Por outro lado, aquilo que hoje parece profundo, e é, de fato, mais profundo, amanhã será só uma verdade aparente na medida em que as suas causas profundas forem sendo reveladas. E, nesse momento, parar a análise seria sucumbir novamente ao revisionismo: dar aquilo que se conhece do sistema por todo o sistema e negar-se a compreendê-lo de forma mais aprofundada.

Isto, contudo, não deve significar a queda no intelectualismo (de certo modo, também ela uma forma de revisionismo). Não se pode acreditar que o esclarecimento das massas poderá resultar automaticamente da chegada de uma vanguarda esclarecida, produzida em algum gabinete de leitura de Hegel, Marx, Lenine, Rosa do Luxemburgo e Gramsci. O conhecimento pensado dos intelectuais nada pode; é o conhecimento vivido das massas esclarecidas que transforma a sociedade.

Enfim, é na luta contra o revisionismo e o intelectualismo, isto é, contra a política sem conhecimento e o conhecimento sem política, que o movimento do Rossio pode encontrar a sua direção – aqui entendida no duplo sentido, de caminho e de grupo dirigente. Como já disse noutro post, está em causa uma luta em dois planos inseparáveis: entre as ideias e entre as pessoas que as portam. Não se expurga uma má ideia (a possibilidade de uma direção enquanto caminho) do movimento sem afastar os seus portadores da direção (do corpo dirigente, da vanguarda) do movimento. Mas aqui raiamos o sectarismo. Enquanto a luta entre pessoas for uma consequência da luta de ideias, então não podemos falar de sectarismo. Mas quando os polos se inverterem e a luta de ideias se subordinar à luta entre pessoas, então estamos em face do sectarismo. Mas, para agravar as coisas, como podemos, neste caso, distinguir causa e consequência?

Isto ainda são ideias soltas. Espero, em breve, ter uma reflexão mais clara sobre estes assuntos.

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30 de Maio de 2011 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | , , ,

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