Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sondagens e eleições II

Ao contrário do que diz a teoria, creio que nestas eleições, as sondagens tiveram efeitos muito visíveis nas intenções de voto dos portugueses. Em primeiro lugar, o programa da PSD e do PS eram exatamente iguais: aquele que o governo negociou com o FMI. Daí que o as sondagens tenham determinado o debate político. A campanha pode ser dividida em três momentos que esclarecem o efeito das sondagens sobre os eleitores.

O primeiro desses momentos foi o tiro de partida para a campanha. Já comentei isso aqui – PSD, apoiado numa sondagem muito favorável, iniciou a campanha com o discurso da inevitabilidade da sua vitória. As sondagens não foram usadas como arma de arremesso por Passos Coelho, mas esta estratégia baseava-se numa mensagem que teria de ser confirmada passo a passo por elas. E logo de seguida as sondagens começaram a parecer querer negar a vitória a Passos Coelho. Esse foi o segundo largo momento da campanha eleitoral. Entre março e maio, o PSD foi perdendo terreno para o PS, como mostra este gráfico. A estratégia do PSD no arranque da campanha fez aumentar o peso das sondagens nas intenções de voto dos eleitores. A subida rápida PS nesses meses, motivou muitos eleitores a virarem-se para o PS. No final da campanha eleitoral, a dez dias das eleições, as sondagens davam os partidos em empate técnico. E o PS tentou tirar proveito disso.

Isto é completamente diferente de dizer que os políticos vão adequando os discursos às variações nas intenções que voto que indicam as sondagens – o que também aconteceu. Ainda só fiz referência ao modo como os dois grandes partidos jogaram com as sondagens para captar votos.

Mas este segundo momento deve ser divido em dois. Entre março e abril o PSD perdeu nas intenções de voto para o PS que subia; entre abril e maio o PSD perdeu para o CDS e só assim o PS, então estagnado, se aproximou do PSD (como mostram os especialistas). Aqui, a estagnação do PS levou a uma mudança de estratégia da sua campanha. Não estou mais a afirmar que as sondagens influenciaram o sentido de voto como até aqui; mas que, sem dúvida influenciaram, as estratégia dos candidatos. Até então, o PS tinha acusado a oposição ao chumbar o PEC, ter obrigado o governo a pedir o resgate ao FMI. O PSD, por seu turno, acusou o PS de ser o grande responsável pela imensa dívida pública. Mas como argumentei aqui e aqui, esses argumentos eram falsos e de fácil rebate. O PSD podia contra-argumentar que o FMI entrou em Portugal como consequência da má política de José Sócrates e o PS falar sobre o grande crescimento da dívida pública do governo de Cavaco e Silva.

A mudança na estratégia do PS inicia o terceiro momento da campanha. Nos últimos dez dias de campanha, o partido socialista acusou Passos Coelho de querer acabar com o Estado Social. Essa disputa entre PS e PSD não é nova. Mas as novidades foram duas. Em primeiro lugar, vimos Passos Coelho a defender-se, pela primeira vez, dessa acusação (embora afirmando que sem crescimento não há Estado Social, o que quer dizer que o crescimento económico deve ter prioridade sobre a saúde, a educação, as reformas e restantes apoios sociais do Estado). Em segundo lugar, o sentido de voto, ao contrário do esperado pelo PS, inverteu-se com Passos Coelho a afastar-se rapidamente de José Sócrates nas intenções de voto. A grande maioria de indecisos, que certamente dividem o seu voto entre o PS e o PSD de eleição para eleição, decidiu votar em Passos Coelho na reta final.

Quer isto dizer que os eleitores portugueses deixaram de acreditar no Estado Social?  Ou, por outras palavras, a defesa do Estado Social feita por Sócrates pareceu, ao eleitorado, uma loucura? É possível. E isto explicaria também a viragem à direita do eleitorado português e o grande crescimento do CDS. Continuo a refletir.

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7 de Junho de 2011 - Posted by | Partidos, Sociedade portuguesa | , , , ,

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